quarta-feira, 28 de setembro de 2011

28

Brasília foi para mim, durante muito tempo, o meu afrodisíaco. Agora é o meu veneno. Criei, com a distância e o passar dos anos, uma espécie de repulsa pela cidade, uma repulsa que me faz tremer só de pensar em passar mais de uma semana por lá. Uma semana é o suficiente – e já está.

Mas não era assim. No auge, bem, no auge a capital federal era o meu refúgio. E o auge foi entre os 16 e 18, talvez 20. Em outros termos, enquanto meus amigos também moravam em Brasília. Hoje, após seis anos longe, me perguntam muito da saudade e às vezes finjo-a para não pensarem que sou de todo insensível.

Saudade-saudade, não tenho. Tenho uma certa nostalgia. Ou nem isso. Tenho uma vontade de reunir. De partilhar meus feitos e descobertas com a família, de apresentar amigos antigos a amigos novos, e agregar. Tenho várias nostalgias, no entanto a minha maior delas reside no presente. Quando puder juntar todos, numa grande festa de três dias, me sentirei completo. Brasília, Floripa, Lisboa e Barna num só momento.

Talvez será possível no meu enterro. Afinal, é isso que os enterros fazem com a gente: nos incluem num grande evento ao qual já estamos mortos. Até amanhã.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

27

Mulher fácil nunca me atraiu. Vocês talvez pensem que falo de uma coisa, mas falo de outra – sem saber explicar. Não é a mulher que beija após uma troca de olhares, que transa no primeiro encontro, que liga, manda mensagem, procura. Não... é um outro tipo de mulher fácil; ou quem sabe o nome seria mulher acessível.

Enfim, títulos à parte, este é o tipo feminino da nota anterior. Lembram-se que três amigas me ofereceram suas três amigas, enquanto outras duas amigas se insinuavam para mim? Pois bem, de todo este leque de opções – sem o ar pedante que possa parecer existir –, a única que estimulou qualquer atração era justo a mais difícil, a mais complicada. Porque estava lá acompanhada.

Isso não a eximiu de chegar ao meu ouvido e sussurrar que estava a ponto de me agarrar. Engraçado, porque agarrar em espanhol é agarrar, então entendi muito rápido o que se passava. Com as quatro solteiras, meu interesse foi zero, nada, nulo – com a comprometida, eis que qualquer coisa em mim acendeu-se. (E aqui vale um parêntesis: das cinco, a comprometida também era a mais bonita e atraente... além de ser mais velha, outro dos meus “fracos”.)

O fato é que voltei só para casa, como já sabem. Mas fico pensando, buscando mesmo na memória, as causas reais e fictícias do interesse pelo desafio. A verdade é que meu primeiro beijo, de algum modo, nasceu no enlace com uma menina “acessível”. E mesmo contra a vontade, beijei-a – e foi péssimo. Em outros momentos da minha vida, ainda adolescente, rejeitei ficar com algumas colegas “acessíveis” e fui veementemente sacaneado pelos outros meninos da classe.

Com o passar dos anos, descobri que o sexo com corpos “acessíveis” não tinha a mesma graça do que com intimidade e cumplicidade. Que não tem, tampouco, a mesma tensão sexual de quando existe uma proibição, um fatalismo, um receio de perda, de ser descoberto, de punição. Outra vez, e o universo masculino é dos que mais pressão social exerce, tornei-me alvo de chacotas.

Ainda preciso pensar muito para chegar próximo à razão de interessar-me sempre pelo inatingível. De tentar entender porque o acessível me desmotiva. Recordo-me agora de uma frase no caderno de uma ex-namorada de colégio: “Tente o impossível, já que o possível pode esperar”. Estou sempre tentando. Até amanhã.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

26

Tirei uma semana de folga da escrita e fui viver. Sem precisão – como diriam os navegadores. Desta imprevisibilidade nascem novos contos, o difícil é saber contá-los. E eu cada vez mais me sinto menos apto à literatura, à sensibilidade, à mágica. Estou me tornando um daqueles seres muito sóbrios e muito lógicos e muito práticos. Resumindo: um chato.

Talvez seja falta de paixão. Paixão por tudo e qualquer coisa. Agora penso na real e verdadeira causa da objetividade: acima de tudo, talvez seja falta de pausa. Não de paixão, de pausa. Nelson Rodrigues dizia que o mais importante no diálogo não é a palavra; é justamente a pausa.

Entrei num ritmo tão acelerado que perdi a capacidade de admirar. De olhar para o lado e contemplar. Sem admiração, começo a me sentir um ciborgue de ações. Odeio agir. Odeio somente agir. Sempre fui mais da emoção que da razão – e essa impossibilidade atual de abstrair as coisas tem me inquietado.

Ao mesmo tempo que estou cercado de gente, emerge a sensação de solidão. A vida é fútil? Talvez não. O meu momento é que é fútil e é mesquinho. Ontem estive rodeado de amigos numa festa ao ar livre e passei um dia excelente. Bebida, boa música, pessoas bonitas. Mas às vezes sentia que aquele ali, naquele instante, não era eu. Ou, se era eu, é um eu um pouco estranho.

Durante o evento – era um mercado de segunda mão com DJ – fui abordado por três amigas diferentes, cada uma de uma vez, dizendo que tinham uma amiga... digamos... fácil para mim. Era só eu querer. Era só eu estalar os dedos. Mais lógica, nenhuma mágica. Outras duas amigas, sem filtros, me abraçavam e se insinuavam. Muito prático, nada lúdico.

E foi neste momento que pensei na pausa e num domingo estirado ao sofá ao lado de uma mulher que realmente me cause um frio na barriga, me estimule a levantar todos os dias com um sorriso imenso, me tire o medo naturalmente. Por enquanto ela só existe na escrita. Porque a vida não é precisa. Até amanhã.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

25

Cansei do mais ou menos. Cansei do meu coração não encontrar par. Estes meses – e não ouso dizer anos para não parecer apocalíptico – têm sido difíceis. Preencho minhas vontades de desbravar o mundo exterior enquanto o mundo interior vai desmoronando aos poucos. Tornei-me mais forte, é verdade. Mas ao mesmo tempo esqueci o que é amar.

Amar, de fato. Amar sentindo o olhar de admiração. Longe do nosso hábitat, ouso dizer, o amor torna-se quase uma utopia. Ou melhor: uma paisagem. O amor transmuta-se numa pose de foto, numa capa de livro. Passamos a amar menos e ser menos amados. Amei uma única e escassa vez nestes três anos d’além mar. E talvez nem tenha sido amor – tenha sido paixão, atração, leveza.

“Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra.” A frase é do Rubem Braga, mas às vezes penso que é minha por usucapião. Quando deixei Brasília, e depois Florianópolis, tinha a convicção dos meus atos, tinha noção que era a melhor escolha, só não sabia que teria de abdicar do amor. Que esqueceria o que é amor. Se tivesse de fazer tudo de novo, não hesitaria um só instante. Apenas começo a desacreditar numa vida que imaginei que teria.

Optei por um quarto, por um emprego que paga pouco, por viver sob uma cultura diferente, com amigos itinerantes. Tudo isso em vez da rotina, em vez de seguir o rumo que normalmente a vida toma. Ah, se ao menos pudesse colocar no papel como realmente me sinto, sem escolher palavras, sem racionalizar as emoções – para que me entendessem de fato! É um desafio intenso. Pior ainda para quem está cansado do mais ou menos.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

24

Temo que estas notas percam a razão de ser. Quis voltar à escrita para me despir, para atingir algumas profundidades que limitei o acesso – porque simplesmente tenho medo do que vou encontrar. Cuido mais do estilo que do conteúdo. Quase sempre cuido mais do estilo que do conteúdo. E odeio o meu narcisismo, odeio como perco o foco da intenção pura e sucumbo às sujeiras da minha alma, às mesquinharias do meu coração, à fraqueza da minha mente.

Mas confesso, num arroubo de sinceridade: escrevo para ser lido, para extrair algum elogio de algum ser vivo que se identifica com o eu dos meus textos. Escrevo porque realmente necessito, mas também porque preciso ser lido – e de preferência comentado. Ando com um pires na mão numa súplica franciscana: me leiam, por favor, me leiam. (E agora recordo com cautela um trecho de Lispector: “Clarice dá tanto aos outros, e no entanto, pede licença para existir”.)

É como sou, é o que sei fazer – escrever. É a única coisa que sei, e coleciono sóbrias dúvidas se realmente sei mesmo. Se soubesse, penso ao final, já teriam me descoberto. Escreveria para sites conhecidos, para colunas de revistas, teria livros com compilações de crônicas e de contos, antologias poéticas. Pois em vez de tudo isso, tenho um blog – um reles e vil espaço onde deposito posts que mais parecem saídos de um diário. É um diário!

Então, devoro os parágrafos de Nelson, de Rubem, de Fernando. Devoro-os com toda a devoção de um aprendiz sem talento. Sem dez por cento do talento desses três gênios imortais. Sinto-me tão aquém que rejeito-me, censuro-me, como se a minha proibição me preservasse da dor de não ser um pródigo, de jamais vir a ser algo próximo a um escritor de verdade.

Este diário teria o intuito de descascar-me, mas nem isso eu faço. Cuido para ser quem eu quero ser. Sou um estilista, sou um racional. Sou, sou, sou. Quanta masturbação de ego! A verdade é que escrever não me acalma, me perturba. E como o amanhã alimenta esperanças de um tempo melhor, o próximo texto enche meu peito de expectativas. Mas ninguém me lê, e para que serve? Até amanhã.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

23

Os franceses chamam o orgasmo de “la petite mort”, a pequena morte. Lembrei da relação ao ver o Meia Noite em Paris, mais recente filme do Woody Allen. O personagem de Hemingway diz uma coisa parecida ao protagonista (ou será que Hemingway disse justamente o contrário?): o orgasmo é a nossa única maneira de superar o medo da morte, de esquecer-se que morremos.

Meu medo da morte apareceu cedo e perdurou até os 24, 25 anos. Não sei dizer bem porque, mas já aos oito sabia que não era infinito, que um dia padeceria. Só que não era apenas a antecipação da minha morte que tornava insuportável a sensação de término, de ruptura: o maior medo vinha ao imaginar a morte das pessoas que amo. Às vezes fantasiava um acidente fatal de automóvel em que, por azar, sobrevivia. E em nenhum outro momento a vida parecia tão sem propósito.

Quando criança, sequei todas as lágrimas numa animação chamada Em busca do Vale Encantado. É um filme famoso da minha gerção, uma espécie de road movie jurássico. Acho que pode ser descrito assim. A mãe do dinossaurinho principal morre, numa briga para salvar o sonho do filho, e desabei no mais profundo martírio. Ainda hoje, ao recordar a cena, o meu coração se contrai. Sou capaz de atravessar a Avenida Paulista de olhos vendados, mas o simples fato de sentir a ausência da minha mãe me dilacera a alma.

Não acredito em outras encarnações ou em céu e inferno. Acredito apenas que somos carne, pedaço de matéria como qualquer outra coisa. Seremos adubo ao morrer – e, particularmente, prefiro ser pó. Todo o ceticismo às vezes surge maciço e inexpugnável e me lembra, com um sorriso de canto de boca, o óbvio ululante: que somos mortais, pobres mortais; que passaremos, que não nos restará nem mesmo a consciência.

Ora, o orgasmo é uma fatia de eternidade. O filho é outro pequeno pedaço, a crença de que seremos lembrados por mais algumas décadas. A arte também é uma tentativa de fugir do anonimato e imortalizar-se. Estranho, pois cada vez me vejo mais distante da vida, mais alheio a ela e, no entanto, não tenho medo do fim como tinha antes. Talvez já tenha morrido. Talvez  naquela manhã de segunda-feira nublada de novembro. Até amanhã.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

22

Talvez por nunca ter morado fora, Vera não entendeu verdadeiramente a minha carência. A minha vontade de cuidado, de atenção, de admiração após perder as amizades que havia construído em Lisboa. Há dois anos, quando o primeiro grupo que formei em Portugal começou a desfazer-se naturalmente, o bicho da carência me picou.

Isso coincide com o tempo de ausência do país. Levo três invernos d’além mar. Mas não, eu não volto para o Brasil por conta de uma ínfima e tola carência amorosa. Ao menos é isso que repito toda vez que a ínfima e tola carência amorosa me devasta após uma relação mal desenhada, numa noite solitária ou numa nova tentativa de entrega. Vera assustou-se com a brutalidade do pedido de afeto. Eu também me assustaria.

Clàudia regressou do país tropical falando justamente dela: a carência. Havia sentido-a na pele – e teve saudade: dos amigos, da família, de mim. Mas ainda que o instinto da privação a fizesse entender o que tentei explicá-la um mês e pouco antes, Clàudia vestiu-se do poema que não conhece. “O amor fascina, mas nunca é remendo”. Disse que adora a minha companhia, mas não está apaixonada; que passa ótimos momentos comigo, mas tem medo de confundi-los com a vontade de ter alguém.

Entendo-a. Como entendo. Por alguns segundos nos fitamos um ao outro, sentados na parada à espera do ônibus que a levaria para casa – e daquele instante. Imagino agora, com o fervor da dúvida, se deveríamos nos ter beijado. Não. Melhor sem beijo. O amor não é remendo, não é remendo, não é remendo. Como o eco de uma oração, a frase me catequiza.

Volto à minha humilde e justa carência. Agora não há mais nada a fazer. A não ser reler poemas antigos que escrevi. Até amanhã.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

21

Há um poema, o final de um poema para ser mais exato, que diz o seguinte: “o amor fascina, mas nunca é remendo”. Sim, meus escassos leitores, volto ao tema do amor com uma obsessão férrea. É inevitável fugir dele. O amor regressa às minhas mãos como um bumerangue lançado no quintal de casa. O assunto me persegue, me fareja, me vigia.

Mas e o poema? Sim, o final do poema é de uma lucidez pétrea. Fascina, mas não é remendo, não é remendo, não é remendo. A repetição pendular me hipnotiza. Qualquer repetição, qualquer mentira mil vezes dita, torna-se uma verdade. Vou além: – qualquer verdade mil vezes dita torna-se um mantra, uma doutrina a seguir.

Já mencionei nestas notas numeradas uma amiga catalã chamada Clàudia. Pois antes de ela passar um mês no Brasil, eu e Clàudia vivemos uma história. Curta, leve e sem significação. “As coisa têm existência”, escreveu Alberto Caeiro. Eu e Clàudia existimos. E existimos muito bem existidos até o derradeiro e conclusivo momento do sexo.

Falem do carinho, do respeito, das afinidades. Inocência, pura inocência. Nada disso conduz o amor. Melhor: – nada disso define o início de um amor. Amor sem sexo é amizade. Mas em que parte da trama eu estava mesmo? Sim, na que eu e Clàudia vivemos uma breve história – até a hora do “vamos ver”. E o sexo aconteceu com algum atropelo de volúpia, com certa sofreguidão dos corpos nus. Não sei como descrever o que se passou. Se sei, ainda não estou apto a fazê-lo.

Todos sabemos que a primeira vez não é a ideal. A primeira vez é o joelho na costela, a diferença de ritmo, as manobras comentadas. Normal. Só a prática confia  intimidade ao ato sexual. A prática molda a relação na cama – ou a torna enfadonha. Já fujo outra vez do tema. Após a nossa primeira vez, Clàudia explicou-me que não queria se envolver, que começava a nos ver como um casal, que em breve estaria um mês longe e preferia estar sozinha. (É quando o orgulho do homem é dizimado, aniquilado, ceifado quase por completo.)

E assim foi. Trinta dias passaram e domingo ela voltou.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

20

"Te quiero!" Ela sussurrou com arrebatamento na concha do meu ouvido. Te quiero é o eu te amo em castelhano. Mas soa mais forte que em português – mais sexual. Não levei para este lado. Somos amigos. Ou pelo menos fomos. Sara foi embora de Barcelona, regressou a Trieste, levou um pouco do nosso convívio, da nossa história, das nossas personalidades. Antes berrou: te quiero! (E ainda tenho para mim que o fez porque estava levemente embriagada de nostalgia pela partida.)

Acredito mais na amizade que em qualquer outra coisa. Diria que só acredito na amizade. O amigo é um pedaço de eternidade. E, nas minhas andanças, a minha preocupação fundamental e veemente, antes de arrumar casa ou trabalho, é arrumar amigos. Tenho tido sorte. Ao meu redor, em Florianópolis, Lisboa e agora aqui, conquisto e conservo amizades reais e tácitas.

Outro dia coloquei um anúncio para vender a bicicleta e me respondeu um tal de Sérgio Nunes. Trocamos três ou quatro e-mails em castelhano até nos encontrarmos perto de casa.  Ora, pelo nome já supus: era brasileiro ou era português. Foi a segunda opção. Sérgio não comprou a bici – de fato, era pequena demais –, mas nos tornamos amigos.

Com Daniel Meirinho e Soraya Barreto foi parecido. O contato nasceu numa rede social, quando buscava informações sobre mestrados em Portugal. Daniel me explicou todos os caminhos, destrinchou as burocracias, me passou os atalhos do processo. Sem conhecê-lo, transferi R$ 1.500 à sua conta, para pagar a primeira parcela do curso. Confiei. Nele e no meu instinto.

Às nove horas do dia 4 de outubro de 2008 toco o interfone na António Pedro e anuncio minha chegada. “Olá! Sobe...”, diz uma voz feminina do outro lado. Alguns segundos depois abre a porta a Soraya, num pijama de carneirinhos – ou bonecos de neve. “Jaiminho!”, diz contente, como se nos conhecêssemos por décadas. Era um prelúdio da relação que viria. Nunca esqueço de lembrar: onde estou hoje, cumprindo um desejo íntimo, devo agradecer muito ao poder da amizade – à amizade do Dani, da Sol e de todos que cruzaram minha jornada.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

19

Sorrimos pouco, sorrimos cada vez menos e até arrisco: temos medo de sorrir – temos uma covardia hedionda do sorriso alheio. E do olá. Ninguém cumprimenta mais. Antes, ninguém entrava no elevador sem antes saudar cada um individual e coletivamente, ninguém subia no ônibus sem dar bom dia ou boa tarde ao motorista. Hoje sorrimos menos e nos cumprimentamos menos.

Já contei que quase todos os dias, de segunda a sexta, volto a pé do trabalho. É uma hora de caminhada. Andar por Barcelona é diferente de andar por Brasília. Aqui vejo pessoas – e digo mais: só vejo pessoas. Em Brasília, a paisagem é composta por aridez e carros. Mas ao mesmo tempo em que me deparo com o escoamento fluido de pessoas, não vejo uma alma. Nenhuma alma sequer.

Falta ao europeu a curiosidade do outro. Falta a invasão do seu mundo, nem que seja por um segundo. Falta a troca de olhares, a análise supérflua, o passatempo contemplativo. O europeu respeita, e às vezes respeita até demais. No espaço restrito do transporte público, qualquer toque é um pedido de desculpas. E se sorri pouco nas ruas. Quase não se sorri ao estranho. Um sorriso nunca foi uma ofensa tão grave quanto em nosso tempo.

Uma amiga catalã, Clàudia Troy, esteve recentemente no Brasil para um voluntariado. Em São Luís e pelo interior do Maranhão. Ficou fascinada pela alegria do povo miserável. Falta comida, mas não faltam gargalhadas. Sofreu com a necessidade daquelas famílias sem água encanada, sem energia elétrica, sem saneamento básico – assim como sofreu com o calor úmido e a desidratação –, porém descobriu o verdadeiro tesouro brasileiro: o sorriso.

Somos um povo que sorri na felicidade e na infelicidade, que aprendeu a rir da própria desgraça, a fazer piada da própria condição. Temos inúmeros e irremediáveis defeitos, como todo mundo, como todos os povos. Só nos custa encará-los com o semblante sério e compenetrado. Queria simplesmente passar nas ruas e sorrir para estranhos e que eles me sorrissem de volta. Simpatia também é uma forma de amor. Até amanhã.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

18

Era sete anos mais velha que eu. Era não – é. Estava casada. Mas foi crescendo uma admiração mútua tão forte, tão sincera, que já era impossível evitar de nos querer um ao outro. Seu cheiro era terno, seu jeito era seguro, sua pele era leite. E depois tudo foi despedida, foi adeus, foi desencontro, foi.

Ia dizer, equivocadamente, que fora meu último amor. Mas não – depois dela teve a Vera. E isso já leva tempo. Amor, amor, nenhum mais. Uma e outra paixão, camuflada na carência de viver sozinho e longe, em terra alheia. E por que não disse à Vera que a amava? Às vezes penso nisso e chego à conclusão que deve ter havido um motivo para a omissão.

Foi um tempo que compus muitos poemas. De 2006 até 2009 foram mais de trezentos. Uma média de cem versos por ano. E atualmente já não escrevo estrofes, sonetos, rimas – em 2010 e 2011 voltei à crônica e arrisquei-me no mundo dos contos, sem êxito. Amor é prosa, sexo é poesia? Talvez para mim a máxima sirva ao revés.

Mas comecei falando disso por algum motivo especial que não me lembro qual. Na minha mente repete-se o desfile do casal que passou por mim outro dia, de mãos atadas e sorrisos cúmplices. E sempre que vejo tal cena, com um olhar de cão abandonado, penso por que não comigo? Já tive o amor de tantas mulheres, já desfilei a mais plena admiração feminina, e, hoje, privado do élan narcisista, mendigo o sentimento pelas ruas.

É isso que virei, é isso que sou hoje: um pedinte. Estendo a mão e me curvo para qualquer possibilidade de encantamento. A admiração espontânea deu lugar a uma necessidade de gostarem de mim, a uma necessidade de aceitação. Nada mais “inatural”, mais vazio de sensibilidade e de sensações, que um amor dado como esmola. Amor não se pede – se conquista. Até amanhã.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

17

Sou um obsessivo. Um obsessivo, acima de tudo, pelo amor. Pelo tema amor. Pelo sentimento amor. Por amar. Tenho a obsessão plena e total de um mundo de amores mútuos e tácitos. De um mundo povoado por desamores – em vez de ódios e intolerâncias, de guerras e conflitos.

Sou um obsessivo pela melancolia. Diria mais: só a melancolia é real. A felicidade é uma encenação, uma crassa bandalheira. Qualquer idiota pode ser feliz – e todo feliz, ao final, porta-se como um idiota, veste-se como um idiota, sorri e gargalha como um idiota. A tristeza é mais difícil, por isso mesmo mais original, mais autêntico, mais puro.

No desalento não há tempo para fingir. Ou melhor: só há tempo para fingir. Tudo é fingimento. Não tomamos um copo d’água, não atravessamos uma rua, não cumprimentamos um vizinho sem fingir a melancolia. E fingimos tanto, e tão bem, que passamos a viver na nossa própria e íntima farsa.

Quando era pequeno queria morrer de tristeza, morrer da e para a tristeza. Disse que sou um obsessivo? Pois me penitencio: sou também dramático. Mas não é qualquer drama que me fascina. O drama tem de ser quieto e solitário. O verdadeiro drama não tem plateia – e como custa impedi-lo de ultrapassar a sua natureza de reclusão e maturação.

Escrevo isso pensando nos filmes. O cinema nos faz crer que haverá sempre uma câmera mostrando nossa tragédia ao mundo. Que seremos os coitados, as vítimas, os mocinhos. As redes sociais também ajudam na difusão dos dramas alheios: basta acabar uma relação ou alguém próximo morrer para o desalento extravasar seu caráter natural, ganhar um post e irromper em centenas de casas.

Hoje em dia, o drama é algo banalizado – eu diria jocoso até. E tudo está tão estritamente ligado, mas ninguém é capaz de perceber: a obsessão, o amor e o drama. Ninguém é capaz de viver os três estágios silenciosamente. Até amanhã.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

16

Lá estava ela, parada à minha frente com sua cara redonda. Desci do vagão e ela subiu. Cruzamos os olhares muito rapidamente e sabia, tinha certeza que a conhecia de algum lugar. Estava em Lisboa. Busquei na memória, escavei os escombros das recordações e... nada. Seu rosto virou um espectro, uma imagem recorrente, ressurgia sempre naquele mesmo instante. Não consegui me lembrar.

Talvez a conhecesse de Lisboa mesmo. Talvez não. Talvezes. Em Floripa, já cumprimentei a garçonete do Clube da Sinuca, um bar que frequentava todo fim de semana, com volúpia de melhores amigos. Era passagem de ano e a avistei na rua, vindo ao meu encontro. Abrimos um mútuo sorriso, nos abraçamos e dedicamos o melhor para 2007. Ou seria 2008. Acreditava, piamente, que era uma amiga de Brasília que não via há tempos. Era a funcionária que via sábado sim, sábado também.

Nas ruas, misturo gente de Brasília, Florianópolis, Lisboa e Barcelona. Quer dizer, misturava – mais Brasília com Floripa. Agora a logística de um oceano de distância está a meu favor. Só que minha mente inquieta trata de inventar jogos para ocupar-me do cotidiano. O mais recente, o mais novo e instigante é o dos “doppelgangers”. (Usarei este nome em homenagem à série How I Met Your Mother.)

No sitcom os protagonistas deparam-se com sósias, com clones quase idênticos deles mesmos. Na vida real, na minha vida real, tem menos a ver com a estética e mais com a maneira de ser. Talvez por segurança, talvez por passatempo, comecei a ligar personagens do meu passado e do meu presente. Talvezes.

O Victor, por exemplo. O Victor, valenciano e namorado da Anna, recifense, sempre me recorda meu primo, Rodrigo. O jeito tranquilo é parecido. Estive há dois dias na sua casa, em Valencia, e a similaridade ficou ainda mais nítida. Já o Sérgio, português que conheci há pouco tempo aqui, é uma versão de outro amigo lusitano: João Guilhoto. Demorei uns dias para relacioná-los. Até que tudo se aclarou num átimo de segundo.

Outros? O Zé, trabalhei com ele na MediaMonitor, em Lisboa, está representado pelo rapaz de óculos sentado no mesmo banco, comendo um bocadillo, quando subo a praça em direção ao metro. Vejo muito da parceria do Alex Gruba no Deh André, um pouco da Melissa na Anna Sitjes e mais um monte de parecenças que ainda não fui capaz de decifrar – o meu companheiro de piso Xevi tem o jeito de alguém, e já levo seis meses vivendo com ele sem conseguir descobrir.

De certo modo, creio que é um mecanismo de defesa o qual desenvolvi. Em Portugal, tive (tenho) pai e mãe. Aqui na Espanha encontrei bons irmãos, boa gente que também cuida de mim e se preocupa com meu bem estar. Isto é precioso. Não há nada que substitua uma amizade. A vida, afinal, é feita de presença e de histórias. E vou colecionando ambos – e preservando-os na memória com afeição.