sexta-feira, 2 de setembro de 2011

16

Lá estava ela, parada à minha frente com sua cara redonda. Desci do vagão e ela subiu. Cruzamos os olhares muito rapidamente e sabia, tinha certeza que a conhecia de algum lugar. Estava em Lisboa. Busquei na memória, escavei os escombros das recordações e... nada. Seu rosto virou um espectro, uma imagem recorrente, ressurgia sempre naquele mesmo instante. Não consegui me lembrar.

Talvez a conhecesse de Lisboa mesmo. Talvez não. Talvezes. Em Floripa, já cumprimentei a garçonete do Clube da Sinuca, um bar que frequentava todo fim de semana, com volúpia de melhores amigos. Era passagem de ano e a avistei na rua, vindo ao meu encontro. Abrimos um mútuo sorriso, nos abraçamos e dedicamos o melhor para 2007. Ou seria 2008. Acreditava, piamente, que era uma amiga de Brasília que não via há tempos. Era a funcionária que via sábado sim, sábado também.

Nas ruas, misturo gente de Brasília, Florianópolis, Lisboa e Barcelona. Quer dizer, misturava – mais Brasília com Floripa. Agora a logística de um oceano de distância está a meu favor. Só que minha mente inquieta trata de inventar jogos para ocupar-me do cotidiano. O mais recente, o mais novo e instigante é o dos “doppelgangers”. (Usarei este nome em homenagem à série How I Met Your Mother.)

No sitcom os protagonistas deparam-se com sósias, com clones quase idênticos deles mesmos. Na vida real, na minha vida real, tem menos a ver com a estética e mais com a maneira de ser. Talvez por segurança, talvez por passatempo, comecei a ligar personagens do meu passado e do meu presente. Talvezes.

O Victor, por exemplo. O Victor, valenciano e namorado da Anna, recifense, sempre me recorda meu primo, Rodrigo. O jeito tranquilo é parecido. Estive há dois dias na sua casa, em Valencia, e a similaridade ficou ainda mais nítida. Já o Sérgio, português que conheci há pouco tempo aqui, é uma versão de outro amigo lusitano: João Guilhoto. Demorei uns dias para relacioná-los. Até que tudo se aclarou num átimo de segundo.

Outros? O Zé, trabalhei com ele na MediaMonitor, em Lisboa, está representado pelo rapaz de óculos sentado no mesmo banco, comendo um bocadillo, quando subo a praça em direção ao metro. Vejo muito da parceria do Alex Gruba no Deh André, um pouco da Melissa na Anna Sitjes e mais um monte de parecenças que ainda não fui capaz de decifrar – o meu companheiro de piso Xevi tem o jeito de alguém, e já levo seis meses vivendo com ele sem conseguir descobrir.

De certo modo, creio que é um mecanismo de defesa o qual desenvolvi. Em Portugal, tive (tenho) pai e mãe. Aqui na Espanha encontrei bons irmãos, boa gente que também cuida de mim e se preocupa com meu bem estar. Isto é precioso. Não há nada que substitua uma amizade. A vida, afinal, é feita de presença e de histórias. E vou colecionando ambos – e preservando-os na memória com afeição.

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