segunda-feira, 5 de setembro de 2011

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Sou um obsessivo. Um obsessivo, acima de tudo, pelo amor. Pelo tema amor. Pelo sentimento amor. Por amar. Tenho a obsessão plena e total de um mundo de amores mútuos e tácitos. De um mundo povoado por desamores – em vez de ódios e intolerâncias, de guerras e conflitos.

Sou um obsessivo pela melancolia. Diria mais: só a melancolia é real. A felicidade é uma encenação, uma crassa bandalheira. Qualquer idiota pode ser feliz – e todo feliz, ao final, porta-se como um idiota, veste-se como um idiota, sorri e gargalha como um idiota. A tristeza é mais difícil, por isso mesmo mais original, mais autêntico, mais puro.

No desalento não há tempo para fingir. Ou melhor: só há tempo para fingir. Tudo é fingimento. Não tomamos um copo d’água, não atravessamos uma rua, não cumprimentamos um vizinho sem fingir a melancolia. E fingimos tanto, e tão bem, que passamos a viver na nossa própria e íntima farsa.

Quando era pequeno queria morrer de tristeza, morrer da e para a tristeza. Disse que sou um obsessivo? Pois me penitencio: sou também dramático. Mas não é qualquer drama que me fascina. O drama tem de ser quieto e solitário. O verdadeiro drama não tem plateia – e como custa impedi-lo de ultrapassar a sua natureza de reclusão e maturação.

Escrevo isso pensando nos filmes. O cinema nos faz crer que haverá sempre uma câmera mostrando nossa tragédia ao mundo. Que seremos os coitados, as vítimas, os mocinhos. As redes sociais também ajudam na difusão dos dramas alheios: basta acabar uma relação ou alguém próximo morrer para o desalento extravasar seu caráter natural, ganhar um post e irromper em centenas de casas.

Hoje em dia, o drama é algo banalizado – eu diria jocoso até. E tudo está tão estritamente ligado, mas ninguém é capaz de perceber: a obsessão, o amor e o drama. Ninguém é capaz de viver os três estágios silenciosamente. Até amanhã.

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