quarta-feira, 7 de setembro de 2011

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Sorrimos pouco, sorrimos cada vez menos e até arrisco: temos medo de sorrir – temos uma covardia hedionda do sorriso alheio. E do olá. Ninguém cumprimenta mais. Antes, ninguém entrava no elevador sem antes saudar cada um individual e coletivamente, ninguém subia no ônibus sem dar bom dia ou boa tarde ao motorista. Hoje sorrimos menos e nos cumprimentamos menos.

Já contei que quase todos os dias, de segunda a sexta, volto a pé do trabalho. É uma hora de caminhada. Andar por Barcelona é diferente de andar por Brasília. Aqui vejo pessoas – e digo mais: só vejo pessoas. Em Brasília, a paisagem é composta por aridez e carros. Mas ao mesmo tempo em que me deparo com o escoamento fluido de pessoas, não vejo uma alma. Nenhuma alma sequer.

Falta ao europeu a curiosidade do outro. Falta a invasão do seu mundo, nem que seja por um segundo. Falta a troca de olhares, a análise supérflua, o passatempo contemplativo. O europeu respeita, e às vezes respeita até demais. No espaço restrito do transporte público, qualquer toque é um pedido de desculpas. E se sorri pouco nas ruas. Quase não se sorri ao estranho. Um sorriso nunca foi uma ofensa tão grave quanto em nosso tempo.

Uma amiga catalã, Clàudia Troy, esteve recentemente no Brasil para um voluntariado. Em São Luís e pelo interior do Maranhão. Ficou fascinada pela alegria do povo miserável. Falta comida, mas não faltam gargalhadas. Sofreu com a necessidade daquelas famílias sem água encanada, sem energia elétrica, sem saneamento básico – assim como sofreu com o calor úmido e a desidratação –, porém descobriu o verdadeiro tesouro brasileiro: o sorriso.

Somos um povo que sorri na felicidade e na infelicidade, que aprendeu a rir da própria desgraça, a fazer piada da própria condição. Temos inúmeros e irremediáveis defeitos, como todo mundo, como todos os povos. Só nos custa encará-los com o semblante sério e compenetrado. Queria simplesmente passar nas ruas e sorrir para estranhos e que eles me sorrissem de volta. Simpatia também é uma forma de amor. Até amanhã.

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