quinta-feira, 8 de setembro de 2011

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"Te quiero!" Ela sussurrou com arrebatamento na concha do meu ouvido. Te quiero é o eu te amo em castelhano. Mas soa mais forte que em português – mais sexual. Não levei para este lado. Somos amigos. Ou pelo menos fomos. Sara foi embora de Barcelona, regressou a Trieste, levou um pouco do nosso convívio, da nossa história, das nossas personalidades. Antes berrou: te quiero! (E ainda tenho para mim que o fez porque estava levemente embriagada de nostalgia pela partida.)

Acredito mais na amizade que em qualquer outra coisa. Diria que só acredito na amizade. O amigo é um pedaço de eternidade. E, nas minhas andanças, a minha preocupação fundamental e veemente, antes de arrumar casa ou trabalho, é arrumar amigos. Tenho tido sorte. Ao meu redor, em Florianópolis, Lisboa e agora aqui, conquisto e conservo amizades reais e tácitas.

Outro dia coloquei um anúncio para vender a bicicleta e me respondeu um tal de Sérgio Nunes. Trocamos três ou quatro e-mails em castelhano até nos encontrarmos perto de casa.  Ora, pelo nome já supus: era brasileiro ou era português. Foi a segunda opção. Sérgio não comprou a bici – de fato, era pequena demais –, mas nos tornamos amigos.

Com Daniel Meirinho e Soraya Barreto foi parecido. O contato nasceu numa rede social, quando buscava informações sobre mestrados em Portugal. Daniel me explicou todos os caminhos, destrinchou as burocracias, me passou os atalhos do processo. Sem conhecê-lo, transferi R$ 1.500 à sua conta, para pagar a primeira parcela do curso. Confiei. Nele e no meu instinto.

Às nove horas do dia 4 de outubro de 2008 toco o interfone na António Pedro e anuncio minha chegada. “Olá! Sobe...”, diz uma voz feminina do outro lado. Alguns segundos depois abre a porta a Soraya, num pijama de carneirinhos – ou bonecos de neve. “Jaiminho!”, diz contente, como se nos conhecêssemos por décadas. Era um prelúdio da relação que viria. Nunca esqueço de lembrar: onde estou hoje, cumprindo um desejo íntimo, devo agradecer muito ao poder da amizade – à amizade do Dani, da Sol e de todos que cruzaram minha jornada.

Um comentário:

Sandryne disse...

Que fofo!! É fácil demais gostar de você, Gu. Fácil demais.