segunda-feira, 12 de setembro de 2011

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Talvez por nunca ter morado fora, Vera não entendeu verdadeiramente a minha carência. A minha vontade de cuidado, de atenção, de admiração após perder as amizades que havia construído em Lisboa. Há dois anos, quando o primeiro grupo que formei em Portugal começou a desfazer-se naturalmente, o bicho da carência me picou.

Isso coincide com o tempo de ausência do país. Levo três invernos d’além mar. Mas não, eu não volto para o Brasil por conta de uma ínfima e tola carência amorosa. Ao menos é isso que repito toda vez que a ínfima e tola carência amorosa me devasta após uma relação mal desenhada, numa noite solitária ou numa nova tentativa de entrega. Vera assustou-se com a brutalidade do pedido de afeto. Eu também me assustaria.

Clàudia regressou do país tropical falando justamente dela: a carência. Havia sentido-a na pele – e teve saudade: dos amigos, da família, de mim. Mas ainda que o instinto da privação a fizesse entender o que tentei explicá-la um mês e pouco antes, Clàudia vestiu-se do poema que não conhece. “O amor fascina, mas nunca é remendo”. Disse que adora a minha companhia, mas não está apaixonada; que passa ótimos momentos comigo, mas tem medo de confundi-los com a vontade de ter alguém.

Entendo-a. Como entendo. Por alguns segundos nos fitamos um ao outro, sentados na parada à espera do ônibus que a levaria para casa – e daquele instante. Imagino agora, com o fervor da dúvida, se deveríamos nos ter beijado. Não. Melhor sem beijo. O amor não é remendo, não é remendo, não é remendo. Como o eco de uma oração, a frase me catequiza.

Volto à minha humilde e justa carência. Agora não há mais nada a fazer. A não ser reler poemas antigos que escrevi. Até amanhã.

Um comentário:

Bípede Falante disse...

sua narrativa é tão visual.
vejo a Vera, a noite, os pedaços de Brasil, a parada de ônibus e até o seu narrador. vejo e gosto!