quarta-feira, 14 de setembro de 2011

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Os franceses chamam o orgasmo de “la petite mort”, a pequena morte. Lembrei da relação ao ver o Meia Noite em Paris, mais recente filme do Woody Allen. O personagem de Hemingway diz uma coisa parecida ao protagonista (ou será que Hemingway disse justamente o contrário?): o orgasmo é a nossa única maneira de superar o medo da morte, de esquecer-se que morremos.

Meu medo da morte apareceu cedo e perdurou até os 24, 25 anos. Não sei dizer bem porque, mas já aos oito sabia que não era infinito, que um dia padeceria. Só que não era apenas a antecipação da minha morte que tornava insuportável a sensação de término, de ruptura: o maior medo vinha ao imaginar a morte das pessoas que amo. Às vezes fantasiava um acidente fatal de automóvel em que, por azar, sobrevivia. E em nenhum outro momento a vida parecia tão sem propósito.

Quando criança, sequei todas as lágrimas numa animação chamada Em busca do Vale Encantado. É um filme famoso da minha gerção, uma espécie de road movie jurássico. Acho que pode ser descrito assim. A mãe do dinossaurinho principal morre, numa briga para salvar o sonho do filho, e desabei no mais profundo martírio. Ainda hoje, ao recordar a cena, o meu coração se contrai. Sou capaz de atravessar a Avenida Paulista de olhos vendados, mas o simples fato de sentir a ausência da minha mãe me dilacera a alma.

Não acredito em outras encarnações ou em céu e inferno. Acredito apenas que somos carne, pedaço de matéria como qualquer outra coisa. Seremos adubo ao morrer – e, particularmente, prefiro ser pó. Todo o ceticismo às vezes surge maciço e inexpugnável e me lembra, com um sorriso de canto de boca, o óbvio ululante: que somos mortais, pobres mortais; que passaremos, que não nos restará nem mesmo a consciência.

Ora, o orgasmo é uma fatia de eternidade. O filho é outro pequeno pedaço, a crença de que seremos lembrados por mais algumas décadas. A arte também é uma tentativa de fugir do anonimato e imortalizar-se. Estranho, pois cada vez me vejo mais distante da vida, mais alheio a ela e, no entanto, não tenho medo do fim como tinha antes. Talvez já tenha morrido. Talvez  naquela manhã de segunda-feira nublada de novembro. Até amanhã.

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