quinta-feira, 15 de setembro de 2011

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Temo que estas notas percam a razão de ser. Quis voltar à escrita para me despir, para atingir algumas profundidades que limitei o acesso – porque simplesmente tenho medo do que vou encontrar. Cuido mais do estilo que do conteúdo. Quase sempre cuido mais do estilo que do conteúdo. E odeio o meu narcisismo, odeio como perco o foco da intenção pura e sucumbo às sujeiras da minha alma, às mesquinharias do meu coração, à fraqueza da minha mente.

Mas confesso, num arroubo de sinceridade: escrevo para ser lido, para extrair algum elogio de algum ser vivo que se identifica com o eu dos meus textos. Escrevo porque realmente necessito, mas também porque preciso ser lido – e de preferência comentado. Ando com um pires na mão numa súplica franciscana: me leiam, por favor, me leiam. (E agora recordo com cautela um trecho de Lispector: “Clarice dá tanto aos outros, e no entanto, pede licença para existir”.)

É como sou, é o que sei fazer – escrever. É a única coisa que sei, e coleciono sóbrias dúvidas se realmente sei mesmo. Se soubesse, penso ao final, já teriam me descoberto. Escreveria para sites conhecidos, para colunas de revistas, teria livros com compilações de crônicas e de contos, antologias poéticas. Pois em vez de tudo isso, tenho um blog – um reles e vil espaço onde deposito posts que mais parecem saídos de um diário. É um diário!

Então, devoro os parágrafos de Nelson, de Rubem, de Fernando. Devoro-os com toda a devoção de um aprendiz sem talento. Sem dez por cento do talento desses três gênios imortais. Sinto-me tão aquém que rejeito-me, censuro-me, como se a minha proibição me preservasse da dor de não ser um pródigo, de jamais vir a ser algo próximo a um escritor de verdade.

Este diário teria o intuito de descascar-me, mas nem isso eu faço. Cuido para ser quem eu quero ser. Sou um estilista, sou um racional. Sou, sou, sou. Quanta masturbação de ego! A verdade é que escrever não me acalma, me perturba. E como o amanhã alimenta esperanças de um tempo melhor, o próximo texto enche meu peito de expectativas. Mas ninguém me lê, e para que serve? Até amanhã.

3 comentários:

Cynthia disse...

Seu blog fica gravado nos meus favoritos, e todos os dias olho ansiosa para ler uma nova página do seu diário...gosto da verdade que transmite ao escrever.

Sandryne disse...

Adoro tuas crônicas por isso, Gu. Porque tu se despe sem aparentes medos de julgamento. Sim, quem escrever quer ser lido, quem canta quer ser ouvido...e que mal há em admitir isso? Eu sou tua fã nº 1, fato consumado.

Tenho a chave disse...

Adoro o estilo e o conteúdo :)