segunda-feira, 26 de setembro de 2011

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Tirei uma semana de folga da escrita e fui viver. Sem precisão – como diriam os navegadores. Desta imprevisibilidade nascem novos contos, o difícil é saber contá-los. E eu cada vez mais me sinto menos apto à literatura, à sensibilidade, à mágica. Estou me tornando um daqueles seres muito sóbrios e muito lógicos e muito práticos. Resumindo: um chato.

Talvez seja falta de paixão. Paixão por tudo e qualquer coisa. Agora penso na real e verdadeira causa da objetividade: acima de tudo, talvez seja falta de pausa. Não de paixão, de pausa. Nelson Rodrigues dizia que o mais importante no diálogo não é a palavra; é justamente a pausa.

Entrei num ritmo tão acelerado que perdi a capacidade de admirar. De olhar para o lado e contemplar. Sem admiração, começo a me sentir um ciborgue de ações. Odeio agir. Odeio somente agir. Sempre fui mais da emoção que da razão – e essa impossibilidade atual de abstrair as coisas tem me inquietado.

Ao mesmo tempo que estou cercado de gente, emerge a sensação de solidão. A vida é fútil? Talvez não. O meu momento é que é fútil e é mesquinho. Ontem estive rodeado de amigos numa festa ao ar livre e passei um dia excelente. Bebida, boa música, pessoas bonitas. Mas às vezes sentia que aquele ali, naquele instante, não era eu. Ou, se era eu, é um eu um pouco estranho.

Durante o evento – era um mercado de segunda mão com DJ – fui abordado por três amigas diferentes, cada uma de uma vez, dizendo que tinham uma amiga... digamos... fácil para mim. Era só eu querer. Era só eu estalar os dedos. Mais lógica, nenhuma mágica. Outras duas amigas, sem filtros, me abraçavam e se insinuavam. Muito prático, nada lúdico.

E foi neste momento que pensei na pausa e num domingo estirado ao sofá ao lado de uma mulher que realmente me cause um frio na barriga, me estimule a levantar todos os dias com um sorriso imenso, me tire o medo naturalmente. Por enquanto ela só existe na escrita. Porque a vida não é precisa. Até amanhã.

Um comentário:

Sandryne Barreto disse...

Pare quando quiser, só não deixe de voltar amanhã.