quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Carta a uma alma pura



Eu preciso acreditar que alguém acredita. Eu preciso acreditar que o sentimento supera quaisquer obstáculos, que transpõem as barreiras do tempo e do espaço. Porque o gostar nada mais é que a fé em algo. E como disse Fernando Pessoa, por Bernardo Soares, a fé é o instinto da ação.

Eu preciso acreditar no futuro. Numa voz enquanto durmo. Que o amanhã beija-me a testa quando surge a tristeza. Uma hora ou outra, a crença – na forma pueril da esperança – enfrenta a lâmina afiada da razão. Nada é permanente nesta jornada tão transitória.

Eu preciso acreditar na leveza como quem desacredita nela. Como se nada mais restasse se não abraçá-la sem perceber, de fato, o que faço. Porque aquilo que se torna natural na gente é o que levamos sempre conosco. E mesmo num dia de esquecimento, sabemos que ela ainda está aqui – debaixo de um monte de roupas sujas e antigas chamadas medo.

Eu preciso acreditar que não é pouco, que não é frívolo, que não é superficial. Que há ternura nas atitudes. A poesia do devaneio é que conforta a maquinaria do presente. As músicas mágicas ainda invadem o peito? As paisagens cósmicas ainda tocam a alma? As experiências lúdicas ainda aguçam o querer? A intimidade tácita ainda funda a fé?

Eu preciso acreditar na comunicação, para crescer. Acreditar na amizade, para respirar. No sorriso, para escapar. Na doação, para me libertar. No companheirismo, para sonhar. “Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida.” Não há bem maior que o de dividir a felicidade, e quem está disposto a isso – ainda que sem a noção da beleza do ato – está disposto a fazer o mundo.

Eu preciso acreditar que fechar os olhos não me levará ao escuro, que minhas vontades não serão antagônicas e desordenadas, que amanhecer será renovar-se e que não existe início nem fim, somente existência. Mas além de tudo, neste momento, eu preciso acreditar que existe alguém que também acredita.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Conversas com um cão de plástico



Amigos leitores, vocês falam sozinho? Aos treze anos eu tinha um grande amigo que falava sozinho. Durante as provas me lembro da repetição de sua voz na carteira de trás: “Mendelssohn, você é muito burro! Você é muito burro, Mendelssohn”. Às vezes eu acho que o Mendelssohn morreu atropelado porque vivia distraído falando sozinho. Ele desceu do ônibus e quis cruzar a rua pela frente do veículo – uma picape o acertou em cheio.

Eu tenho passado muito tempo só nos últimos dias, e passei a falar sozinho. Quer dizer, sozinho não. Com o Moritz. O Moritz é um golden retriever de plástico que está diante de mim agora, enquanto escrevo. Ele me olha complacente com a minha dor, o meu sofrimento que alterna momentos de serenidade e insanidade. E me faz lembrar dela – não, da dor não. Dela, que passou.

O Moritz somos nós, o Moritz é ela. E ela é este vazio, este silêncio sepulcral que me faz falar sozinho. O meu bom dia para o bibelô canino na verdade é um bom dia para ela. O beijo dado antes de dormir – sim, eu beijo um cão de plástico! – é a vontade de tocar-lhe a bochecha com meus lábios. As coisas que fiz, que farei, que planejo, que anseio são todas compartilhadas com o Moritz.

Ao saber da loucura que me atinge, um amigo perguntou, sarcástico: “E ele te responde?”. Pior que não. Nem ela. Já pensei inclusive em levá-lo para passear comigo, metê-lo no bolso para cima e para baixo e tê-lo presente. Sempre. Mas daí me dá medo de um automóvel me arrebatar na esquina seguinte…

domingo, 16 de setembro de 2012

Entre o pesadelo e a realidade…


Amigos leitores, vocês já despertaram no meio da noite sem saber se o pesadelo era real? Com medo de que tudo o que tivesse acontecido durante o sono fosse mesmo verdade? E ao contrário?

Acordei esta manhã com a impressão de que a realidade fosse um sonho. Um pesadelo da pior espécie. Precisei perguntar-me mentalmente se tudo aquilo era o que me rodeava, o que passava comigo, se era… E a resposta foi um sim doído.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, escreveram os cosmonautas. Essa imprecisão nos faz confundir entre estarmos despertos e dormindo. Será, afinal, que a morte não é a vida e a vida não é a morte?

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Isto de ser adulto...



Amigos leitores, isto de ser adulto pode até ser divertido, mas tem horas que cansa. O pior é que profetizam o caminho. Ameaçam-nos, quando somos crianças, ao dizerem: “Olha, aproveita agora que é a melhor fase da vida!”. E a gente até acredita, com os olhinhos vidrados no interlocutor, mas aí o danado do tempo passa voando e a gente se torna um poço de responsabilidades e preocupações.

Outro dia uma amiga propôs uma festa à fantasia bacana: todos vestidos do que gostaríamos de ser quando crescesse. O lampejo nasceu na Catalunha, e eu comentei com ela que se fosse no Brasil a maioria dos homens estaria de jogador de futebol. É verdade, eu queria viver do esporte bretão, mas também já quis ser lixeiro – é que sempre gostei da cor laranja. Na festa, talvez optasse pelo segundo só para ser diferente.

E por falar em ser diferente, esse afã levou-me a onde estou hoje: Barcelona. Quero evitar o “eu, eu, eu” – me disseram que ando usando muito o “yo, yo, yo” –, mas também quero comentar com vocês que ultimamente tenho refletido sobre essa escolha de caminho. Parece, ou fazem parecer, que são dois rumos distintos: o profissional e o coração. Isto de ser adulto...

Mentira. Os rumos se abraçam quando trabalhamos no que desfrutamos, na cidade que gostamos, ao lado das pessoas que apreciamos. No entanto, diante do meu vaivém, vejo que é cada vez mais difícil agregar TODOS esses conceitos. Quando tive de optar por um (profissão) ou por outro (vivência), elegi o número 2. No menu veio a mudança a Lisboa – e ainda que estivesse fazendo um mestrado, sabia que era “apenas” uma justificativa –, o gradativo afastamento do jornalismo e, em seguida, Barcelona e a instável vida de freelancer como tradutor e revisor de texto.

Em quatro anos, de repórter do Diário Catarinense e depois assessor de imprensa da Caixa Econômica Federal passei a ter o “ofício” de desempregado. E com a mesma pressão de precisar pagar as contas que tinha antes – ouso dizer, com até mais encargos. Querem saber? Isso me encanta. De verdade: me fascina. É como me sinto outra vez criança, e por mais que as responsabilidades e preocupações me rondem, flerto com a liberdade de traçar o meu destino – sem o medo de perder isso ou abrir mão daquilo.

Talvez, afinal, me vestisse de mim mesmo na tal festa à fantasia. Talvez se esse eu de nove anos de idade me encontrasse com o eu de hoje, pensasse orgulhoso: “Que massa a sua vida!”. Tudo bem que, antes, teria de gastar pelo menos uns trinta minutos explicando os motivos de não termos nos tornado um jogador de futebol famoso.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A honestidade na tristeza de CR-sad



Amigos leitores, entre um espirro e outro e essa dor no corpo que não vai embora, penso: oras, o Cristiano Ronaldo está no direito de estar triste! Por que isso agora, assim, de supetão? Porque pensei: semana passada eu também estava triste, e diante da melancolia pura a coisa mais irritante que se pode dizer é: “As criancinhas na África não têm o que comer…” ou “Os atletas paraolímpicos superam todas as adversidades para competir…”.

A minha tristeza é minha, é pessoal e intransferível, é proporcional à minha vivência, ao meu estado de espírito, caráter e entorno. O CR7, ou “CR-sad”, pode estar triste com o que bem quiser, quando bem quiser, da maneira que bem quiser. Não é culpa dele querer ganhar 12, 15, 20 milhões de euros em vez de 10 milhões. Ou sentir-se desprestigiado e desvalorizado porque outros nove jogadores ganham mais que ele. Trata-se de uma profissão como qualquer outra.

Eu disse culpa? Odeio essa palavra. É responsabilidade, isso, responsabilidade de uma série de pessoas que desde quando o “puto” encantava no Sporting até hoje passam a mão na sua cabecinha e o elevam. É Ronaldo em Portugal, Adriano no Brasil e Deus no céu. Pelo menos é como parece funcionar o ego dessa dupla. Mas eles são humanos e também falham falhas iguais às nossas.

Não gosto do gajo nem vou com a cara dele. Mas futebol é futebol: é campo, é onze contra onze, é bola na rede. A arrogância às vezes é confundida com personalidade, e vice-versa. Justificar o desempenho de CR7 nas quatro linhas com o seu jeito de ser é estupidez – ainda que a imagem do jogador contemporâneo seja cada vez mais atrelada à do herói e modelo. A sua ambição de ganhar mais milhões é um ponto de vista: diante da crise que assola a Europa, alguns encaram como insensatez, falta de tato; outros a veem como justa.

Ronaldo segue sendo um dos melhores do mundo. Independentemente de ganhar menos que Eto’o, Ibra, Conca ou Messi e mais que Iniesta, Agüero ou Neymar. Para dizer bem a verdade, a tristeza de CR7 parece ter pouco a ver com cifras: ele quer amor, carinho e atenção, coisa que dinheiro nenhum do mundo compra. O que aquela criancinha faminta da África e o atleta paraolímpico talvez tenham em abundância. Cada um fica triste com o que lhe falta.

“O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.” (Mario Quintana)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Melhor acreditar em superstição



Amigos leitores, é melhor eu admitir antes que seja tarde: sucumbi às superstições. Outro dia, com as voltas que sua vida amorosa dava, um amigo bradou em extrema agonia etílica: “É um fardo, um grande fardo este inferno astral! Eu disse! Começou… justo no mês antes do meu aniversário”.

Confesso que sempre respondi com um sorriso complacente a esse tipo de alegação. Dei um tapinha nas suas costas, enchi nossos copos com cerveja, brindamos por hábito e no trago pensei no quanto nos forçamos a acreditar na ânsia de justificar tudo. O que não sabia é que quase trinta dias depois minha opinião estóica começaria a mudar.

Também por causa do amor. Ou do desamor. Ainda não tenho claro se são as mesmas coisas ou coisas diferentes. Se são. O fato é que, sem mais rodeios, foi a vez de uma amiga experimentar o tal “inferno astral” anunciado e propagado aos quatro ventos. Bastou ela botar o pé no mês que antecede o apagar das velinhas e, pufffffff, o que estava bem degringolou. Coincidência? Chama o padre Quevedo!

Aliado a isso, agosto não foi lá muito agradável. Vocês já devem estar seguindo a pista de onde essa constatação chega: agosto é conhecido como o mês do desgosto, do cachorro louco. E assim foi. Ou está sendo. Pode piorar, ainda estamos em agosto – por mais três dias para quem lê e cinco para mim que escreve… Imagino que será quase impossível chegar à data de publicação desta crônica sem um sobressalto sequer.

Nunca fui de superstição, mas neste 2012, ano do fim do mundo, melhor acreditar nela. Ao menos serve para nos conformar sobre algo ruim. Quero ver se setembro também correr mal... Sendo meu aniversário só em abril, talvez possa atribuir a um inferno astral supradiantado. Ou então justificar que não me dou bem com anos pares. É a esperança de melhora, afinal, que sempre nos renova.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Colecionando inimigos



Depois do “Olá, prazer. Meu nome é Fulano”, vem a famosa interrogação:

– De onde você é?

É praxe. Desse protocolo nascem as etiquetas que colamos nos brasileiros que moram fora do país. Carrego as minhas, ainda que raramente as pessoas descubram de onde eu sou – quando resolvo fazer esse joguinho imbecil do “sou de um lugar que não tem sotaque”. Isso vem desde Floripa, e os manezinhos, gaúchos ou paulistas arriscavam mil e umas cidades sem nunca acertar.

Já cansei dessa brincadeira. E também das tais etiquetas. Ao primeiro sinal do “De onde você é?”, solto um duro e seco:

– De Brasília, infelizmente.

Não tenho vontade de responder a essa pergunta. Logo, também não a faço. Sou o jornalista menos curioso de toda a história do jornalismo. Mas, vá lá, é porque tenho preguiça de brasileiro – para um gringo minha curiosidade aflora. Depois, trata-se de uma afirmação das mais verídicas a “de Brasília, infelizmente”.

Brasília é chata e boba, feia não. Quer dizer, antes de cair na infantilidade das ofensas, retifico: é chata e boba depois dos dezoito. Brasília é uma cidade do cara…mba quando somos crianças. Ah, e quando nos aposentamos e temos os filhos fora de casa e a vontade de desfrutar a calma e a tranquilidade.

Não me convenci de nada disso. E quebro meu próprio argumento com uma coisa: Brasília não tem praia. Ponto final. Eu bem podia dizer do entorno, das aventuras ecológicas que orbitam a capital, mas praia (para mim!) é praia: mar, areia, aroma, clima. Além disso, Brasília é tão programada e tão planejada, tão pretensa à organização, que a espontaneidade foi para o beleléu.

Só de falar no nome da cidade já arrepio. É de pensar em ter de voltar a viver lá. Sou de Brasília, infelizmente – e confesso que já andei dizendo que sou de Florianópolis, só por diversão. Da próxima vez vou arranhar meu péssimo sotaque português e dizer que sou lisboeta. Será que cola? Acho que sim, já ouvi muitos comentários de que não pareço brasileiro.

Para falar bem a verdade, como comentou o Alex Gruba, a nacionalidade não existe, a nacionalidade é um romance. Felizmente, sou do mundo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Disputa de saque



Reproduzo um diálogo enviado por um amigo. Um diálogo, aliás, que me fez pensar. Será que tudo é disputa de saque até encontrarmos a pessoa correta? Quem jogou pingue-pongue (pingue-pongue! que palavra mais agradável de se falar e se escrever!) sabe o que me refiro.

Pois aqui vai:

– Isso deixou de ser “brincadeira” há um bom tempo. Não vou apagar teu número por motivo nenhum. É o tipo de amor que não me importa se sinto sozinha, se tenho a certeza dele sozinha. Foda-se. E já te disse isso algumas vezes.

– Eu também.

– Inclusive quando te dei um “livro”.

– Você já jogou pingue-pongue na vida?

– Já.

– Então sabe o que é “disputa de saque”?

– Sim, prossiga.

– São todas as outras de antes e de agora. Elas são “disputas de saque”. Não estava valendo, não está valendo. É como me sinto. Como se elas não “valessem”, e sim você. Você é o jogo principal, é a verdadeira “disputa”. Elas, disputas de saque.

– E isso tá sendo ruim?

– De jeito nenhum. A espera para te ter está sendo complicada. Por mim, estava te contando isso no pretérito perfeito, com a perfeição da sua cabeça no meu peito. Ambos nu.

– Por mim também. Nunca te escondi isso.

– Eu sei. Digo porque tinha essa vontade de te dizer outra vez.

– Eu ando tão desacreditada em tudo que a única coisa que carrego com certeza é a de nós. Mesmo quando tento não acreditar pra parar de doer por não sermos ainda. Que confusão. E que dramática.

– O que é um jogo se não um drama?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Há burrices… digo, crenças recompensadas!



Eu sou cercado por ingenuidades envolvendo dinheiro. Já paguei R$ 15 num tapete comum que devia valer 1/5 disso; R$ 25 numa carteira que me arrependi 30 segundos depois, não usei uma vez sequer e tive vergonha de voltar na loja para trocar; R$ 4 e pouco numa fita crepe… numa fita crepe! Já comprei um computador que demoraram três meses para me entregar e um CD de jogo via internet (nos idos da rede mundial) que veio errado, então pediram para que eu enviasse de volta e me mandariam o correto. Até hoje, neca.

Mas nada supera o do Raval. (Antes de tudo, Raval é um bairro de Barcelona famoso pela imigração árabe. Está cheio de indianos e paquistaneses. O local, inclusive, ganhou o apelido de “Ravalistan”, uma menção ao Pakistan.)

Amanhã volto à festa onde dei 20€ a um vendedor de cerveza-beer à espera do troco. A história beira a estupidez. Mas só beira. Ela tem muito mais de crença na honestidade que um sentido de burrice. Pelo menos é assim que prefiro contá-la. Ou encará-la. No fim das contas, o que foram 20€ para uma noite que me presenteou com duas pessoas formidáveis.

Alto lá. Não vou colocar o carro na frente dos burros (por que vocês automaticamente pensaram em mim?). Já disse que cometo ingenuidades crassas e pcfariasínicas quando o assunto é dinheiro, e a do Raval, a dos 20€, foi a seguinte: a latinha na rua vale 1€ e decidi comprar uma com a nota azul. Acreditei no amigo paqui quando ele disse que não tinha troco, que iria trocar e voltava já. Acreditei não porque sou um quadrúpede da espécie asinina, e sim porque trata-se de um povo muito justo e idôneo por natureza.

Pois ele sumiu no meio da multidão, deixando comigo dez cervejas. O mais cômico foi a mistura de raiva com esperança – guardei o pack do paqui como se não fosse meu, e não era!, até que resolvi vendê-lo e reduzir meu prejuízo. Passei a noite toda remoendo a minha idiotice, digo, a minha fé na humanidade, sem dar-me conta de uma frase lançada por alguém no meio da noite:

– Há males que vêm pra bem…

Essas frasesinhas de efeito. Blergh! Justo nessa noite, porém, conheci a Clau e a Lili – duas mulheres interessantíssimas, dois corações vibrantes que se mesclaram à minha existência. “Há males que vêm pra bem.” Não, não. Prefiro pensar que há burrices recompensadas. Digo, fé na humanidade! fé na humanidade! Pouco me importa se tiver de perder 20€, 50€, 100€ a cada ano em troca de amizades tão puras e revigorantes. Tenho certeza que aquele paqui não tem um pack de tão bons amigos como eu tenho.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Aula de catalão*



Decidi aprender uma língua nova. Sabem como é: ultrapassei os 50% dos 27, num ritmo galopante até os 30 e, se não for agora, se adiar isso por preguiça ou cobiça, receio perder a chance que a jovialidade ainda me oferece. É que o tempo é arisco, meus caros, é traiçoeiro, fugidio.

Sem namorada, sem casa, sem emprego, sem inspiração literária e sem meu cartão do banco (que foi misteriosamente bloqueado), fuxiquei na internet e encontrei um curso de catalão. Minha consciência, e alguns amigos, estranharam: “Você podia aprimorar o inglês, investir no espanhol, interessar-se pelo francês, pelo alemão, pelo italiano... mas não, colocou nesta teimosa cabecinha que é o catalão, justo o catalão”, esbravejou meu alter ego.

De médico e louco todo mundo tem um pouco. Outros, como eu, têm muito. Então cá estou entre os jo sóc e os fins demà do idioma. Ainda só sei o básico. João és el meu amicme’n vaig a casa e són les set menys quart. Arranho uma ou duas sentenças após quatro módulos de “aulas”. O catalão é tão próximo do português – tanto ou mais que o castelhano – que se torna até fácil.

Também não pensem que é só na Catalunha que o idioma é posto em prática. Não senhores! Mais de 10 milhões o utilizam. O catalão é a língua oficial de Andorra. Repito: de Andorra! Ou seja, quando for para lá, irei me comunicar com classe e desenvoltura, como se fosse um... um... uma pessoa que nasce em Andorra. Conseguem vislumbrar o meu empreendedorismo cognitivo?

Já era para eu estar em Barcelona, essa é a verdadeira verdade em abraçar o catalão com tanta força, de cravar minhas unhas nas suas costas e aconchegar o rosto no seu ombro. Meu coração salta, dá um duplo twist carpado, um mortal ao inverso quando ouço falar das Ramblas, do Parc Güell, do Montjuic, da Gràcia. Nunca entenderei bem o porquê desta ligação tão íntima e visceral – não há o que entender, há o que ser vivido. 

“Barcelona é uma cidade feiticeira. Mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem darmos por isso.” (Carlos Ruiz Zafón)

Aprendo catalão para descodificar as mensagens que Barcelona sussurra nos meus sonhos. Aprendo catalão para sentir o insentível, absorver o inabsorvível, narrar o inarrável. Poucas vezes na existência temos tanta certeza emocional de algo. Poucas vezes damos autonomia à intuição, cerramos os olhos para sermos conduzido pelo vazio.

Esta simplicidade é o meu sangue. Este desleixo, o descomprometimento, a irresponsabilidade, a subversão perante o ordenado, a regra, o senso, o mesmo é o meu afrodisíaco. A minha paixão não está propriamente nas coisas, nos gestos, nos atos. Não reside em ter ou ser. A minha paixão não é estado de espírito, não é mensurável, não é valorada. A minha paixão é. Enquanto eu ainda a for.

* Texto de 17/10/2010 incrivelmente recente.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Senão, qual é o propósito?



Sou um obsessivo e volto e meia retomo assuntos que já escrevi. Decidi, por curiosidade, buscar crônicas do passado. De um passado recente, de menos de um ano. Não me arrisquei a mexer nas gavetas do Dois em Xeque – um blogue bate-papo que mantive com a Mayara Paz durante alguns meses de 2008 – ou do “famoso” 7 Cronistas Crônicos.

Essa obsessão é quase sempre relacionada aos sentimentos. Tenho a necessidade quase constante de abordar o tema, alimentar o universo do coração com palavras e mais palavras – escritas ou faladas.

Pois uma amiga me pediu, com uma ingenuidade sôfrega: escreve sobre mim. Estranho. Senti-me um não-sei-o-quê. Um não-sei-o-quê mesmo, porque nenhuma conclusão do que senti me surge ou surgiu. A verdade é que ela queria que escrevesse sobre ela e sua confusa relação com o ex-atual-namorado. Não sei se estes meus pensamentos vão tocá-la, e admito mesmo que nasceram pensando em outro caso, em outro amigo.

Muitas vezes me pergunto: qual é o propósito de um namoro desgastante? Mais que isso, às vezes questiono por que nossos comportamentos são diferentes entre um amigo ou amiga e um namorado ou namorada. Afinal, amor não é amizade com sexo? Ora, parece sim, mas com vários ingredientes mais, como o ciúme, a neurose, a posse, o descontrole, a necessidade de atenção.

Evoco novamente a sabedoria de dona Sandra, minha mãe. Ela sempre argumentou que um relacionamento, ainda mais despido de tantas responsabilidades mundanas, tem de ser leve e agradável. Senão, qual é o propósito? Cobranças e desconfianças nos tornam pesados e sérios e chatos e inquietos e incomodados e tristes e… o cotidiano por várias vezes já não se incumbe de ser tudo isso?

Perdão, meus caros leitores, minha obsessão pode até parecer doença. O que me custa, de verdade, é ver pessoas tão inteligentes e alegres pendentes de um desconforto psicoemocional que as retira do propósito fundamental da união. Certas coisas da paixão nós nunca aprendemos a aprender.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Vista de cerca, toda la gente es rara



Venhamos e convenhamos, jogador de futebol é um tipo bem estranho. Como é época de Eurocopa e me vejo cercado de mulheres assistindo às partidas, normalmente tenho escutado comentários sobre a beleza dos atletas. Não que não façamos o mesmo quando vemos tênis feminino, vôlei de praia, ginástica olímpica ou a seleção argentina de hóquei de grama.

Eu convivi com futebolistas quando fui setorista do Avaí, em Florianópolis, e assino a afirmação: poucos se salvam. Contamos nos dedos quem tem mais que um pezinho bonito – no sentido figurado, lógico. Estou pisando em ovos para não me interpretarem mal, mas o fato é que jogador que é jogador possui outro tipo de inteligência.

Estou fugindo do tema central. O contexto era para dizer que eles são estranhos, que ninguém escapa de ser estranho. Na tevê, se mostram impecáveis e imponentes, desfilam habilidades, distribuem passes milimétricos, despejam dribles desconcertantes, constroem e destroem ilusões. Agora vai ver os cacoetes, as manias, os tiques de cada um. Nem o Guardiola salva, revelou-me um amigo que já presenciou uma conferência de imprensa do ex-treinador culé.

A verdade é um mantra que tenho repetido dia e noite: de perto, todo mundo é estranho. A intimidade “fode” tudo, com o perdão da palavra. Ou não. Uma pessoa bonita, digo, fisicamente bonita, pode causar asco em minutos. O inverso também ocorre. No meu time, pouco me importa se o cara é raro, se come meleca, tem baba no canto da boca, só caga pelado, tem mania de atenção, fica agressivo quando bebe, faz barulho quando ri, tem medo de arroz, tem tara por sovaco, gosta de fazer sexo com meia… o importante é que jogue bem.

E na amizade? E a mulher que estou afim? Mário Quintana dizia que os amigos são os nossos chatos prediletos; Nelson Rodrigues que o amor é a idolatria dos defeitos e não das virtudes. Faço um adendo: gostar é naturalizar as esquisitices do próximo – é admiti-las, ignorá-las, repeti-las e, inclusive, sensibilizar-se por elas. Al final, vista de cerca, toda la gente es rara.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Amar sem amar



Caros amigos, tinha a crônica desta semana pronta. Prontíssima. Lida, relida, revisada, aprimorada. Como deve ser. Escrever é a arte de reescrever. Não sei se a frase é de Proust ou Barthes.

Mas aí ontem, Dia dos Namorados no Brasil, Facebook salpicado de recadinhos carinhosos e amorosos, e a veia revoltada dos meus vinte anos saltou-me à testa. Uma andorinha não faz verão, diz o ditado. Mas duas já podem criar uma pequena revolução – ainda que dure alguns minutos, seja patética e termine, como quase sempre, num discurso bonito e vazio.

Esta é a efêmera conversa com uma amiga, via chat, na noite de 12/06/2012:

GJ: – Vamos criar a campanha: “Abaixo a monogamia!”. Por um mundo promíscuo...
NC: – Ai, credo. Quanta amargura a nossa. Deixa o povo amar em paz.
GJ: – O povo não ama como se deve amar. O povo ama convencionado, e torna da convenção do amor uma vitrina pública.
NC: – Como se deve amar?
GJ: – Sem amar.
NC: – Amar sem amar. Como funciona?
GJ: – Por que você está viva? Sei lá, fisiologicamente falando...
NC: – Prossiga...
GJ: – Porque come, bebe, dorme... de forma natural, sem estardalhaço. Pois o amor seria mais amor se fosse “naturalizado” em nossas vidas, e não se houvesse esse alvoroço todo em torno dele. O alvoroço o alça a algo exclusivo, a meta de vida, a desafio, a raridade... O amor devia ser tão básico e vital quanto todas as funções básicas e vitais que nos fazem continuar respirando. E tudo que vai contra isso não me convence da sua verdade... melhor, da sua pureza e autenticidade.
NC: – Sem mais. Concordo.

Na próxima quarta juro que não sucumbirei à tentação de mudar o texto na última hora.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Desfrutar o agora



Brasileiro que é brasileiro tem duas particularidades natas e hereditárias. Uma delas aprendi há pouco tempo. Aprendi não, uma catalã me despertou para ela. Brasileiro que é brasileiro desfruta o momento, vive o agora. Tenta aproveitar ao máximo o que tem para ser aproveitado hoje.

É cultural. E mais que cultural, é histórico. Sempre tivemos muito até que nos usurpassem. Pertencemos a um povo que descobriu cedo que a injustiça é mais comum que o mérito, e talvez o amanhã nos prive dos ganhos de todo uma vida.

Mas não quero ser apocalíptico ou pessimista. Essa minha amiga explicava, muito didaticamente, sua experiência no Brasil – num acampamento de Sem Terra no Maranhão. Contou que num determinado almoço de festa a comida que sobrou não foi guardada para o dia seguinte ou para o jantar, como supunham – e desejavam – os europeus que ali estavam. “A gente viu aquela quantidade de alimentos e pensou: amanhã vamos comer bem de novo”.

Comer bem, algo um tanto raro durante sua viagem. Talvez ainda mais raro no cotidiano daquelas pessoas. O fato é que diante da fartura, os Sem Terra convidaram mais um sem-número de bocas. O que tinham ali, naquele instante, merecia ser aproveitado ali, naquele instante.

Essa anedota me remonta à minha infância. Eu devia ter 12 ou 13 anos e recebia R$ 5 semanais dos meus pais. Estreava-me no ofício de gerenciar dinheiro – e o fazia muito mal. Cada vez que tinha a nota rosa na mão, corria a uma banca de jornal: ia um tanto de figurinhas do Campeonato Brasileiro e outro tanto de jujubas.

Um dia, minha mãe, numa conversa serena, me explicou a importância de economizar, de não gastar tudo de uma só vez e em “porcarias”. Concordei com ela – por teimosia e para mostrar-lhe que era capaz de não comprar tudo em besteira – e aceitei o desafio. A partir daí, os R$ 5 tornavam-se R$ 10, R$ 12, às vezes R$ 15 no fim do mês.

Engraçado, porque ao final de tudo, esse pequeno ensinamento moldou meu caráter financeiro. Não sou do tipo que gasta com qualquer coisa, e posso ser bem mão fechada. Aprendi, porém, que para desfrutar do agora, melhor não ter planilhas de gastos ou folhas de controle… melhor livrar-se da paranóia dos números e buscar o equilíbrio.

Mas eu disse que o brasileiro tem duas particularidades. Pois a outra é carregar a bandeira do Brasil de cabeça para baixo. Reparem.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O pra sempre sempre acaba



Amigos leitores, Renato Russo estava certo. Mudaram as estações e minha rinite alérgica me recorda que espirrar uma vez pode ser bom, duas é até engraçado, mas cinco vezes seguidas é exagero. Sem contar o nariz sempre escorrendo, numa cascata de catarro aquoso. Nem quero imaginar a quantidade de árvores que ajudo a derrubar com tanto lenço recorrido.

Mas Renato Russo estava certo não porque mudaram as estações, mas porque a mudança das estações culminou numa sábia e famosa frase: “o pra sempre sempre acaba”. Nada é eterno, e até mesmo os meus atchins – que na primavera parecem infinitos – terão o seu fim. É assim também num relacionamento.

Eu sei, cá estou eu falando mais uma vez de relacionamentos. Não se aborreçam comigo. A gente costuma despejar no papel aquilo que tem muito – espirros e catarro – e pouco – namoradas e amor. No entanto, se já me defini como um romântico patético no passado, do tipo mais coração que razão, hoje pendo para o romântico cético, do tipo mais dúvidas que certezas.

Por exemplo: não acredito em algo que cri com afinco: a eternidade. E o mal da nossa crença no amor é venerar a eternidade. “Até que a morte os separe” é de uma cegueira decrépita. Nelson Rodrigues foi mais longe ao transbordar uma enorme lucidez assim: “Todo amor é eterno. Se não é eterno, não é amor”. Logo, nada é amor.

Cada vez mais penso que romances vêm e vão, que namorados rompem, casados se divorciam, amantes se abandonam. O definitivo no amor é a indefinição. E de que adianta estar junto por estar? Dizem que o mal do nosso tempo é que não somos acostumados a consertar. Quando está mal, quando algo estraga, trocamos em vez de comprar um novo.

E antigamente? Era melhor? Talvez houvesse mais relações fictícias, relações de aparência, e gente infeliz. A mudança era uma heresia – era preciso estar junto, ainda que a linha da crença na união e da persistência no amor tivesse sido rompida. Como relativista nato e hereditário, concluo: não há certo ou errado, devemos perceber o tempo das coisas.

Nada dura para sempre… o para sempre sempre acaba.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O que é o amor se não um boa transa?



Amigos leitores, comprometo-me a publicar uma crônica cada quarta-feira – reparem que o adjetivo “nova” foi estrategicamente omitido –, mas vocês não precisam fazer o mesmo e se comprometer a lê-la toda semana, religiosamente. Afinal, sei que uma das duas partes, mais cedo ou mais tarde, romperá o acordo.

Até os aconselho a não me ler, recordando um texto do Rubem Braga. O cronista mineiro expressou sua vontade mais sincera ao escrever “não me leiam”, e agora repito o apelo. Façam algo mais interessante: sei lá, sexo. Não que desacredite na escrita – é a minha que tem carregado poucos atrativos.

Alguém que escreve descrente do romantismo não deveria escrever. Deveria ser metido numa sala escura e receber doses cavalares de Nicholas Sparks, Cameron Crowe, Celine Dion. No mínimo. A proibição de ter um papel e uma caneta ou um computador viria em caso de primeiro insucesso. Mas como tais recursos kubrickianos não atingiram a nossa época (não na sua forma explícita), tenho a permissão para produzir os meus textos.

O amor romântico é uma crassa bandalheira. O que chamamos de amor nada mais é que sexo. Puro enlace carnal. E é aí quem vem a confusão: se a transa é boa, atribuimos-lhe amor. Nada mais lógico. Já viram amor sobreviver a transa ruim? Ou melhor, nenhum amor jamais nasce, cresce e se reproduz a partir de dois corpos que não se encaixam em nada.

Usei o termo “confusão” e cravei que à transa boa atribuímos-lhe o amor, porém serei menos xiita. Nem sempre, amigos leitores… nem sempre. Algumas vezes uma transa boa é apenas uma transa boa. Sexo tal qual – masturbação a dois, sem a necessidade de palavras, abraços ou carinhos a seguir ao gozo.

Outro dia tentava convencer uns amigos de que o sono é mais íntimo que o sexo. Creio que a maioria das pessoas sexualmente ativas compartilhou a mesma cama mais vezes transando que sonhando. Tanto que o sinônimo de fazer amor é dormir juntos. E o de transar? Deveria ser “dormir separados” ou “cada qual em casa”. Talvez fosse plausível.

Amor é ponto de vista. Sexo é se desvista e ponto.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Com saudade? Então volta



Entre contos meio tontos e crônicas xoxas, vou preenchendo o Até Amanhã com material de quinta categoria. O fato é que muitos me consideram por aí um escritor nato e hereditário, e vez ou outra tenho de agradar a opinião alheia – ainda que sempre me ria com o predicado “escritor” atrelado à minha pessoa.

Tenho me virado como posso para continuar em Barcelona. Um jornalista que dá aulas de português, faz traduções e se envolve com revisão e correção de texto é mais versátil que um macaco de circo. E possui muitas similaridades com o símio. Entretenho meus clientes-alunos como posso e faço o que posso por uma banana (um trabalho, quero dizer).

Às vezes me rebaixo a qualquer cifra. Há alguns meses resolvi colaborar com um site de viagens… ou melhor, uma rede social de viajantes. Pagavam-me a módica quantia de um euro por tradução. Inicialmente me venderam “o peixe” como sendo dois ou três parágrafos por experiência. Depois vi que alguns relatos tinham até 15 parágrafos! Ainda lambi minhas próprias bolas por uns dois meses, sem condições de rejeitar a esmola. No final, recebi 15% do valor se tivessem pago o preço justo de tradução.

Coisas do mundo freelancer. Mas me perguntem se quero voltar ao Brasil e ganhar 2, 4, 7, 10 mil reais? A resposta é não. Não suporto a ideia de me imaginar no país tropical. Não hoje. Não agora. E tudo que tem sido dito ou repetido (e como repetem tudo! culpa do Facebook!) sobre minha terra natal me dá um asco sem fim. Podem chamar-me de mal agradecido, o fato é que quando penso num possível regresso a tristeza se apossa de mim.

Pior que os efeitos colaterais são talibânicos. Se alguém me convida para uma festa brasileira, para um restaurante tupiniquim, minha resposta é um não imediato e definitivo. E me põe nervoso o saudosista, de qualquer nacionalidade, de qualquer idade e credo. Se quisesse tomar Brahma e comer feijoada toda semana não cruzaria o Atlântico, se minha intenção fosse estar rodeado de conterrâneos em vez de misturar-me à cultura local ficaria no meu porto seguro.

Em Roma sê um romano, diz o ditado. Então faço o que posso para manter-me na arena do Coliseu, lutando pela sobrevivência. E esbravejem e esperneiem contra o que quiserem: isso de pátrias e fronteiras é uma estupidez, isso de nacionalismo é patético. Gosto de pertencer a onde estou – e a todos os lugares em que passei e onde nunca estive.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Gemido de prazer



Seus lábios escorregaram pelos seios macios, acomodaram no umbigo quente e continuaram descendo lentamente. Com as duas mãos, agarrou a calcinha pelos lados e foi baixando cada tira pouco a pouco, em movimentos alternados e sincronizados.

Viu a marca do biquíni desenhada em contraste com a pele morena. Sentiu o coração na garganta, mas não cessou os beijos – foi quando escutou um leve gemido de prazer e a vontade de torná-los contínuos e vibrantes o fez mergulhar nas suas profundezas.

Passou a calcinha pelas coxas, pelos joelhos, canelas, tornozelos, pés. Num movimento delicado, porém firme, escancarou as pernas dela. Pensava em tudo, ao mesmo tempo em que mantinha a mente vazia e não pensava em nada. Tremia um pouco, e não era frio.

Ouviu um gemer mais forte. Ergueu a vista e a encontrou deslumbrada, com o queixo alto, os olhos apertados, a cabeça apoiada para trás. Achava esta cena completamente divina. Piscou com a convicção de que tirava uma foto mental, e voltou faminto ao ambiente encantado.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Apaixonar-se pela paixão



Na semana anterior havia completado três anos solteira. E pela primeira vez sentia uma necessidade quase patológica de partilhar o seu dia-a-dia com alguém.

― Finalmente! ― vibrou a melhor amiga ao saber da abertura.

Alcançaria os trinta em quatro meses. E a ânsia por um compromisso parecia haver baixado sobre ela com toda a força, assim como os primeiros fios brancos. A mãe que, antes, quando perguntava sobre affairs e namorados recebia uma resposta desleixada, um meio-sermão sobre o papel feminino na sociedade atual e seu fascínio pela independência, começou a perceber a filha diferente. Na primeira oportunidade, desferiu a dúvida:

― Apaixonada?

Ela desconversou. Somente após uma sutil insistência, comentou en passant sobre um antigo caso renascido das cinzas, mencionou algo sobre uma aventura louca de fim de semana, citou um recente rolo sem importância.

― O desejo da paixão ― interrompeu então a matriarca ― é um estado de espírito que antecede o ser pelo qual nos apaixonamos.

― Você está querendo dizer que...

― Estou querendo dizer que não nos apaixonamos por ninguém. Apaixonamo-nos, de fato, pelo sentimento de apaixonar-se, pela vontade de tal ação ― rematou a senhora.

Diante da desconstrução da mãe, pensou nos casos antigos, do tempo em que era uma solteira convicta. Percebeu que havia dispensado ótimos pretendentes porque não estava apaixonada por eles, e que agora tentava encaixar nos seus planos qualquer um que lhe desse atenção.

― Será então que a paixão só é possível no desespero? Na solidão? Na baixa autoestima? ― quis saber a filha.

Mas não houve resposta. O que viu foi dois ombros levantarem-se em sincronia com as sobrancelhas.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parabéns para vocês, família querida



Minha mãe não me bateu naquele dia, quando ajoelhei no carpete, juntei as mãos com em reza e disse com um pesar enorme: ― Ai, meu deus, chegou a hora da minha surrinha...

Tinha seis, talvez sete anos. Ela segurou a risada, largou o chinelo, me deixou plantado na mesma posição e foi gargalhar longe de mim. Não apanhei por uma reação engraçada, mas também ingênua.

Como quando estava na consulta e soltava piadinhas toda vez que a médica fazia perguntas. Era quase um stand-up comedy hospitalar. Isso também aos seis, sete, oito anos – a memória me trai agora, aos 28, 29. Pois a doutora, coitada, cansada das brincadeiras, soltou esta: ― Sabia que você é muito engraçadinho?

Achei graça, mas a declaração me pareceu uma tremenda injustiça naquele momento. Para reparar a situação, respondi: ― É porque a senhora ainda não viu o meu pai...

De fato, meu pai é o rei das piadinhas. Sempre tem uma no bolso, e sempre pega no pé da minha mãe. Aprendi que é sua forma de expressar carinho, amor. Tenho amigas que se queixam que às vezes as sacaneio demais – não sei se realmente passo do limite ou se elas ainda não entenderam que nesse aspecto sou tal qual o meu pai.

Minha irmã, não sei quantos anos tínhamos e vou esquecer essa coisa de idade, certa vez revelou que gostaria de ter uma irmã e não um irmão. Confesso que aquilo pesou, e passei o resto da infância buscando a sua aceitação. Até mesmo quando fazia “macaquices” na rua era para chamar sua atenção. E o último pedaço de bolo? Nunca era meu. Era dela. Queria que fosse dela. Porque o seu bem-estar é o meu conforto, a sua segurança é o meu sossego.

Tenho a beleza e a força das mulheres ao meu lado. Se consigo desarmá-las com uma frase engraçada ou com um sorriso maroto, elas me conquistam pelo cuidado e pela doçura. Fui educado para respeitá-las, tratá-las bem. Devo tudo à minha mãe, que me ensinou o que é ser parceiro de uma mulher. Lembro que a enchia de beijos e a anunciava como a mais bonita do mundo.

Gostava quando deitava comigo na cama e coçava minhas costas. A sua leve presença me tranquilizava. Sempre fomos unha e carne, e já chegamos ao cúmulo de passar seis horas dentro de um Carrefour, fazendo compras – essa história é famosa na família. Por essas e outras, é a ela que devo parabenizar hoje, dia em que completo 29 anos. A ela, ao meu pai, à minha irmã.

Obrigado. Muito obrigado aos três. Divido cada voto recebido, cada “felicidades” com vocês. Sou quem eu sou porque tive quem eu tenho.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Gente de alma livre


― Tenho curiosidade de ver as coisas que escreves. Ando tão longe dos contos e da poesia que preciso embriagar-me com outros autores. De preferência os bons. E não te sintas pedante ou não penses que falar de ti e dos teus textos é vangloriar-te gratuitamente. Se não nos vendermos, quem o fará?

― Ainda estou no universo mágico de “apenas escreva, o restante vem disso”. Mas sei que mais cedo ou mais tarde tenho de botar a cara à tapa!

― Terei ao menos o prazer instantâneo de ler algum dos textos que comentaste?

― Claro! Mas tenho que pegá-lo no meu computador, que está no meu avô. Deixei na casa dele antes de viajar e ainda não passei para buscá-lo. Mas eu escolho qual mandar... Ah, como esqueci de te falar? Comentava com meu avô sobre você um dia desses e eis que ele solta: “já gostei desse rapaz, é como eu. Busca o que quer e o destino faz o resto. Quem diria que um português, que vagava pelo mundo trabalhando feito um cão, entraria num navio rumo à Argentina e, numa aposta de jogo de baralho com os amigos da cabine, apostaria descer no Brasil? E cá estou. Gostei. Gosto de gente como a gente, gosto de gente de alma livre”.

― E já gostei imensamente do teu avô, ainda que ele seja sportinguista...

― E vascaíno.

― A gente releva... as pessoas de alma livre às vezes têm times podres.

― Hahaha, como você.

― Sabia que diria isso.

― Foi previsível.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Certeza de existir




Eu já tenho a certeza de existir. Estranho isso. É como se tivesse apenas que aguardar o momento. Já sei meu nome, tenho minha certidão de nascimento. Agora toca esperar. Sem pressa.

Esperar – tal verbo que vocês conjugam com dificuldade, haha. Será que também serei assim: ansioso, urgente, inquieto com a vida? Engraçado, por enquanto não sinto nada disso: e sim uma convicção. Que talvez seja uma convicção tola, mas é real.

Ontem, enquanto ouvia a conversa, pensava: que sortudo sou! É que atualmente – penso eu, mas o que sei sobre isso? – está em extinção essa cumplicidade, esse alicerce firme, essa vontade de fazer valer que vocês sedimentaram. Não só: também há uma escassez de alma, de bondade, de respeito.

Nossa, parece que seremos felizes. Eu já tenho a certeza de existir. E também tenho a certeza de que será uma existência e tanto!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Penélope



Às onze da noite soou a campainha. Uma, duas, cinco vezes. Vezes mais longas, com intervalos mais curtos. Em todas, hesitei em atender – deitado no sofá da sala, sonolento, com a TV ligada, parecia produto de um sonho ou do filme que se arrastava na tela.

Quando abri a porta, a chuva invadiu o hall. Franzi a testa e puxei-a para dentro. Estava ensopada. Logo criou-se uma poça d’água. Fitei-a com a maquiagem borrada, uma mecha de cabelo colado à bochecha, as mãos trêmulas. Apesar da dúvida, de não saber por que estava parada à minha frente, daquele jeito, àquela hora, a amei com todas as forças.

― Já quis ser arquiteta ― ela balbuciou.

Minha expressão de que não entendia nada foi em vão. Continuou:

― Sou alérgica a penicilina. Tenho medo de dirigir. Estalo os dedos sem perceber toda hora. Gosto de dançar sozinha. Nunca fui a um enterro. Gosto das luzes dos semáforos quando chove. Tenho mania de morder os lábios. Gosto de vinho mais do que de muitas coisas na vida. Peço desculpas mesmo quando não devo. Fico sem respirar até ver o “aprovado” na máquina de passar o cartão de crédito e finjo que sei quando alguém diz “sabe o fulano?”.

À medida que seguia, o que parecia sem sentido, ficava indecifrável.

― Tenho pressão baixa. Fico ansiosa fácil. Falo rápido. Não uso gírias. Não costumo ligar para as pessoas, e muitas vezes nem atendê-las. Me arrepio fácil. Não costumo usar salto alto. Minha flor preferida é orquídea. Uma das minhas maiores saudades incompreensíveis é do meu avô materno, que não cheguei a conhecer. Às vezes minha mente começa a gritar e não consigo parar. Sempre bato meu dedinho em algum móvel pela casa. Choro quando alguém chora.

A água que descia de seu corpo franzino (parecia mais magra agora que nunca) começava a escorrer para a cozinha.

― Nunca joguei boliche. Faz cinco meses que não ligo a TV do meu quarto.  Amo usar vestidos. Chorava escondido quando mudei de cidade para não magoar meu pai. Tenho uma visão excelente, embora o olfato não seja tão bom. Prefiro decote que pernas de fora. Respiro baixo. Uso água termal só de frescura. Esqueço-me de beber água. Esqueço-me de comer. De vez em quando vou à biblioteca só para pensar melhor entres os corredores de livros. Já tive cabelo vermelho.

― Misturo histórias que aconteceram com as que imaginei. Gosto quando o dia vai acontecendo sem planejamento. Sou péssima para fazer escolhas rápidas e planas. Descrevo as coisas de forma ineficaz. Tenho mania de escrever sobre amor, mas não sei nada sobre...

Não a deixei terminar. Mergulhei nos seus braços e banhei-me daquela mulher que chorava lágrimas negras e se chamava Penélope, como na mitologia.