segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Lembranças do sexo juvenil



Mariana sabia que me casaria no dia seguinte. Mesmo assim, talvez por acreditar que me pudesse fazer mudar de ideia, aceitou o convite. Mariana era morena, conservava os cabelos castanhos na altura do ombro, escorridos, lisos, bem cuidados.

Eu gostava quando ela os prendia com um rabo de cavalo alto, e seu rosto exótico era valorizado pelas duas grandes maçãs da bochecha e pelos olhos levemente puxados, de gata. Sua nuca, então, se punha desnuda, e eu era possuído por todo aquele ímpeto de beijá-la por trás enquanto agarrava seus seios.

Naquela tarde nos encontramos no Jardim do Torel. O frio bailava timidamente, o suficiente para Mariana levar o xale vermelho que lhe havia presenteado em nosso primeiro ano juntos, de um total de quatro.

— Vim pela curiosidade — justificou-se com os lábios colados ao meu ouvido, enquanto dava-me dois beijos demorados.

Quis revelar que precisava ter certeza da decisão, que vê-la era saber se escolhia o caminho certo, mas cogitei que talvez já soubesse isso tudo e a minha confissão apenas massagearia seu ego. Respondi, despistando o incômodo, que a curiosidade, por ofício profissional, cabia mais a mim que a ela.

— Não, a você cabe o compromisso com a verdade — me contragolpeou.

O café sucedeu-se sem sobressaltos. Mariana continuava a mesma, apesar de discursar que havia mudado desde o rompimento. Seus enredos mais corriqueiros, como os colegas de trabalho e a gata de estimação, pareciam travestidos de uma convicção falsa de bem-estar mundano e espiritual. Ainda mantinha o olhar por cima, aquele olhar que convivi tanto tempo e por vezes parecia esconder uma mulher assustada e vazia.

— E como ela é? — perguntou quando gesticulei ao garçom magricela, pedindo a conta — Estivemos este tempo todo aqui conversando bobagens, e você não deu uma pista do seu amanhã. Vamos deixar de hipocrisia. Diz, como ela é?

— Diferente — limitei-me a responder.

— Diferente como? Tem três olhos, dois narizes, cinco braços?

— Um coração.

— Fala assim como se ninguém o tivesse.

— Ela tem o meu coração — concluí seco.

— E se trata de um prêmio?

— Você sabe que nunca foi muito fácil pra mim entregá-lo assim a alguém.

— Pois ainda não entendi o que faço aqui...

— Quero me desculpar. Todos os anos que estivemos juntos não sinto que tenha sido o meu melhor "eu" pra você.

— Talvez porque não o incitasse a sê-lo.

— Talvez. Mas não justifica.

— Você vai casar, Lucas. Não vai morrer. Não tem necessidade de se explicar ou buscar o meu perdão.

— Sei disso. E nem é o que busco.

— Então o que é?

— Preciso saber se passados tantos anos ainda temos o mesmo encaixe, se ainda temos a mesma química, se nosso sexo ainda é tão bom.

— Você tá louco? Você se casa amanhã e quer transar comigo?

Respondi em silêncio. Senti que Mariana se arrepiava com meu olhar fixo nos seus olhos de gata. Desejava-a pela última vez, queria reviver aquele sexo juvenil e afoito do qual tantas vezes nos embebedamos. Levantei-me abruptamente, a tomei pelos braços e todo o furor de nossas melhores noites era revivido.

— Amor?! Amor?! — uma mão me balançava compulsivamente. — O que passa com você? Tá dormindo? Há cinco minutos que te pergunto se aquela do outro lado da rua não é a Mariana, sua ex? — Flávia questionava.

— A-rã... Ah, é verdade. Nem tinha visto — e voltei a chupar meu suco de cenoura com beterraba com a maior inocência do mundo.

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