terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A conversa que antecede o gozo (Parte Final)



― Pronto. ¿E agora?
― Agora... ― a voz de Rubem tremeu. Limpou a garganta. ― Agora, enquanto te elogio e digo o que quero fazer com você, você começa a se tocar devagar.
― Está bem. Mas não é um pouco esquisito? Sei lá, parecem aqueles vídeos caseiros da internet.
― Quê?
― Os vídeos da internet ― repetiu mais forte, lembrando-se em seguido que sua mãe estava em casa.
― Só o começo... depois não.
― Na verdade, você já está bem à vontade né?
― Olha, a conexão está mal... Não te entendi. Repete, por favor?
― Eu disse que você já... Ah, esquece. Vamos começar logo. Vou tirar o sutiã.

Maria passou os braços por dentro das alças, virou a peça rapidamente e liberou o fecho. Tímida, manteve seus seios escondidos por um abraço que se dava a si mesma. Do outro lado da tela, Rubem assistiu aos movimentos em câmera lenta e com cortes. Perdeu o ministriptease quase por completo e se deparou com a imagem da garota já despida sem poder identificar bem o que eram suas curvas por causa da má qualidade do vídeo.

― Ei, Mari… Ma... Droga, está dan... ...blema aqui. Nã... ...sigo te ... bem, a tran...ssão está ru..., es... ...ando.
― A...i tamb... está ma... Não ...jo na... bem.

As vozes saíram espaçadas e confusas. A conexão se converteu numa tentativa frustrada de comunicação.

― Oláááá, Maria? Alô, alô, está me ouvindo?
― Rubem? Rubem?
― Maria? ¿Maria?
― Rubem? Rubem?

A porta se abriu silenciosamente e a mãe encontrou a filha sentada na cama, só de calcinha e coberta por uma inquietude. Oi, querida. O que está acontecendo? Escutei várias vezes você chamar por um Rubem e fiquei preocupada. A garota fechou o laptop bruscamente e se esticou para alcançar a blusa no tapete.

A dezenas de milhares de quilômetros, Sebastião pressionava continuamente o F9 do teclado para encontrar outra mulher com a qual pudesse espantar a solidão e se refugiar na madrugada. Já não precisava se esconder e dispunha de uma tela em cores maior que a da antiga elevisão portátil.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A conversa que antecede o gozo (Parte 4)


Maria escutou três leves toques na madeira. Aproximou-se da porta nas pontas do pé e afastou a cadeira, tentando parecer a mais natural possível. Pensei que estava dormindo, filha, respondeu seu pai ao ver o rosto da garota atrás da porta. Mas ouvi sua voz ao telefone e…, continuou. Maria mantinha todo seu corpo no interior do quarto e só a cabeça para fora. Procurava esconder a nudez. Voltou à cama mais branca que o habitual.

― Tudo bem?
― Nossa, que susto! Era meu pai dizendo que vai ao mercado. Perguntou se eu precisava de algo.
― Diz para ele trazer um vinho. Assim talvez você se solte mais ― Rubem começou a rir.
― Cala boca! ― ela respondeu com um sorriro alegre.
― Vou tirar a calça porque aqui faz um calor dos infernos.
― Você não perde a oportunidade, né? Vamos fazer mesmo? Tem certeza?
― Por que não? Já chegamos até aqui...
― Porque, bom, nunca o fiz.
― Mentira!
― Juro.
― Então deixa que te ajudo. Fica só de calcinha e sutiã.
― Quê?
― Só de calcinha e sutiã, mulher.
― Você já parece bem entusiasmado com a situação, ein?

Sem pressa, Maria desabotoou a calça e baixou o zíper. Rubem viu parte da roupa interior vermelha. O sangue corria mais rápido em suas veias. Seu coração acelerou. Os jeans deslizaram pela coxa, superaram joelho e canela e, ao chegar ao tornozelo, Maria tirou-os ao revés. Ajeitou a calcinha movendo sensualmente o quadril e sentou-se outra vez, cruzando as pernas numa postura de meditação.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A conversa que antecede o gozo (Parte 3)



― Vem aqui ― balbuciou, mudando o assunto e aproximando-se.
― Onde?
― Fica quieta... Melhor assim.
― Tem certeza que não tem problema? Se meus pais me descobrem aqui desta maneira... Você ainda se salva, mas eu não ― Maria baixou o tom da voz.
― Por que vive com seus pais?
― Acabo de sair da universidade. Não consigo me manter com meu trabalho. Além disso, nem é um trabalho, é um estágio.
― É, é complicado. Tá com frio?
― Não, por quê?
― Nada. Quer ajuda para tirar o sutiã? ― perguntou-a com um olhar malicioso.
― Muito espertinho, Rubemzinho! Um minuto...

Maria apanhou o celular ao seu lado. Tocava o fragmento de uma música pop norte-americana. De repente a música parou. Olá!, disse eufórica. Tudo bem, Sarinha?, continuou, com a voz mais branda. Rubem observava a garota enquanto falava ao telefone. Com o auricular no ouvido esquerdo, ela mexia na alça do sutiã distraidamente e se olhava no grande espelho ao lado do armário. Levantou-se da cama, acendeu uma luz e caminhou até a escrivaninha para ver algo num caderno com a capa amarela e laranja da Betty Boop. O rapaz retomou a atenção à conversa. Sei que é loucura, Sara. Fez uma pausa. Sim, sim. Novo intervalo, dessa vez maior. Mas ele é legal, acredita em mim, não é um tipo desses. Foi interrumpida e se seguiu uma terceira pausa. Está bem. Um beijo. Tchau.

― Pensava que tínhamos combinado de não dizer nada a ninguém ― ponderou Rubén imediatamente após Maria descolar o aparelho do ouvido.
― É impossível. Sara é minha melhor amiga. Nunca nos escondemos nada.
― O que ela disse sobre sua loucura? ― fazendo sinal de aspas no ar.
― Minha loucura? Nossa loucura, é o que você quer dizer.
― Para Sara a loucura é só sua. Ela não me conhece.
― Ssshhh... Silêncio... ― pediu com o dedo indicador na frente dos lábios.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A conversa que antecede o gozo (Parte 2)



Maria ajeitou-se na cama. Com três dedos da mão esquerda desatou os dois primeiros botões. Parte de seu peito floreceu diante de Rubem. Ele nem piscava. Prontamente, com os braços em xis, alcanzou a base da blusa e tirou-a suavemente. A pele branca foi-se revelando aos poucos em contraste com a escuridão do dormitório. O sutiã era liso e azul. Rubem recordou de seus quinze anos, quando despertava no meio da noite para assistir escondido aos filmes pornôs em uma televisão portátil preta e branca.

― Que isso? ― perguntou à Maria.
― O quê?
― No seu braço direito.
― Oh, é uma tatuagem ― respondeu a garota, mostrando-lhe melhor. Rubem dividia a atenção entre o desenho e o contorno perfeito dos seios de Maria. ― Fiz quando tinha dezesseis. É uma fada sentada numa lua, pensando em toda a vida que tem adiante. Mas tenho que retocá-la. Quer dizer, quero fazer outra tattoo por cima desta. Tem alguma?
― Fada?
― Não, bobo. Tatuagem ― riu.
― Tenho duas. Uma na perna e outra nas costas. Quer ver?

Sem esperar a resposta, Rubem agarrou a gola da camisa e com um movimento ágil passou-a sobre a cabeça. Seu corpo era moreno e atlético. Havia nadado durante vários anos e tinha os ombros largos e os tríceps definidos. Atirou a peça de roupa a um lado do quarto, penteou o cabelo debilmente com as mãos e deu as costas para a garota.
― Vire um pouco mais... Aí.... Uau, que tattoo massa! ― Maria deu de cara com um desenho que tomava dois terços das costas de Rubem. ― Tem algum significado?
― É Shiva, o deus transformador do hinduismo. Fiz faz dois anos, depois de mudar de cidade. Acreditava que daria sorte levar o amuleto no meu corpo.
― Você se depila?
― Quê?
― É que quase não tem pelo no seu peito. Se depila?
― Passo máquina.
― Mmmm... E na perna?
― Não, na perna não!
― Não ― sorriu de maneira espontânea ―, e a tattoo da perna, o que é?
― Ah, é uma expressão em latim: Memento mori ― Rubem explicou, mostrando a panturrilha com as duas palavras escritas.
― O que quer dizer?
― Lembre-se que vai morrer. Uma vez li num livro, acho que do Séneca, e decidi tatuá-la.
― Nossa, que mórbido...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A conversa que antecede o gozo (Parte 1)



― Tira a roupa, vai.
― Não, não... Você primeiro.
― Tem alguém em casa?
― Meus pais estão aqui.
― Não é melhor fechar a porta? Vai, fecha.

Maria afastou os ursos de pelúcia do colo e colocou-os cuidadosamente sobre o lençol rosa, acomodando-os nos travesseiros como se fossem peças de cristal. O Mickey vestido de mago e o Pooh fantasiado de Natal denunciavam que a garota já havia estado na Disneylândia. Ou talvez um ex-namorado a tenha presenteado, pensou Rubem. Depois do pequeno ritual, ela caminhou nas pontas do pé até a porta e a encostou com cuidado. A madeira grunhiu  suavemente. Maria morava com os pais e o irmão menor num apartamento simples, ainda que grande, no centro da cidade.

― Melhor assim... ― comentou Rubem no regresso da garota. Distraído, corria o dedo indicador na tela do smartphone. Aproveitou a oportunidade para colocá-lo no modo silencioso e depositou-o no criado-mudo, ao lado de um copo com água pela metade e um luminária sem lâmpada.
― Mas nada impede que entrem aqui se escutam algum barulho ― explicou Maria tentando captar a atenção do rapaz.
― Não trancou a porta?
― Não. Aqui em casa os quartos não têm chave.
― Põe aquela cadeira atrás da porta ― Rubem apontou à poltrona colonial perto da estante que misturava fotos de Maria e dos amigos com bonecas de pano. Certeza que pertence a uma mesa de jantar antiga, imaginou. Era o único objeto com aspecto de realidade naquele  ambiente que mais parecia ter saído de um catálogo da Barbie.
― Assim pelo menos podemos escutar alguma coisa se tentarem abrir a porta ― concluiu.
― Também tenho um irmãozinho pequeno ― ela adicionou.
― Também tem o quê?
― Um irmão. Ele tem oito anos.
― E onde está? ― Rubem inclinou-se à garota, preocupado.
― Na casa do vizinho.
― Ah bom! Sabe como são as crianças quando encontram algo que elas veem que está mal. Sei porque tenho dois sobrinhos que são umas pestes, não se calam se descobrem algo curioso, nem com chantagens, mesmo se digo que vou dar os jogos de videogame que tanto desejam ― voltou a relaxar-se. ― Mas vamos deixar de tanta conversa... Tira pelo menos a blusa, vai.
― Está bem ― consentiu Maria.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não estou pronta



― Olha...
― Quê?
― Posso ser sincera?
― Sempre...
― Não estou pronta.
― Pra quê?
― Prum relacionamento.
― Como?
― Sim, o que buscas.
― Eu?
― Não consegues esconder.
― Tá tão na cara assim?
― Tá...
― Caramba.
― Ainda penso nele.
― Em quem?
― Meu ex.
― Não sabia.
― Já comentei.
― Ah, sim...
― É judeu.
― Não te pagava o cinema?
― Bobo. Vivemos juntos em Jerusalém.
― Sério?
― Um ano.
― E...
― Era muito pesado.
― Religião?
― Sim.
― E foste embora?
― Não aguentei.
― Mas não consegues esquecê-lo.
― Nos falamos sempre.
― Engraçado...
― O quê?
― Ela também é judia.
― Quem?
― Apaixonei-me perdidamente por uma garota há dois anos.
― E onde ela está agora?
― Não tenho ideia. Talvez nas Ilhas Samoa.
― E por que acabou?
― Nem começou.
― Deve ser por isso...
― Por isso quê?
― Que te forças a gostar de alguém.
― Como?
― É nítido.
― O quê?
― Que ainda vives à margem de uma história mal-acabada.
― Pois já há ponto final. Até mais de um.
― Então por que a dificuldade de esquecer?
― Talvez porque os veja como reticências...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os quatro filhos



Quero quatro filhos. Cada um de um adeus que dei na vida. Quero uma família grande, com a mesa barulhenta e ambiente caótico. Quero lembranças confusas, uma caravana, dois cães e várias estórias. É que não tive propriamente isso.

Sempre fomos eu, minha irmã, meu pai e minha mãe. Nós quatro nas Páscoas e Natais, aniversários e passagens de ano. Longe de isso ser ruim. Adoro a presença harmoniosa do trio, mas agora quero o outro extremo.

O Artur virá primeiro. Nome forte: de rei, de craque. Será o mais velho, o responsável pelos irmãos, o solitário. Quero que tenha um pouco da minha personalidade. Vai gostar de futebol e de escrever.

Depois virá a Luana. Delicada e tradicional. Menina pacata, com aquela beleza clássica e gênio difícil. Quem sabe nascerá sob o signo de Touro – teimoooosa. Será uma companhia e tanto no interesse pela gastronomia.

Então virá a Beatriz. Bia – vou chamá-la assim desde a gravidez. Figura carismática, olhos verdes, que ficarão apertadinhos quando sorrir. Vai ter jeito para a arte e espírito criativo, tanto para o bem quanto para suas peripécias. Será estonteante, às vezes provocando os ciúmes da irmã. Mas serão amigas, confidentes, andarão sempre coladas.

Por fim, virá o Felipe, com sua independência, sua vontade de voar. Surfista, aventureiro, livre e amante da liberdade, o caçula vai acelerar minhas rugas e a queda de cabelo (se ainda restar-me algum fio). Será um sujeito de coração agregador e puro. Uma relíquia.

E assim serão o Artur, a Luana, a Beatriz e o Felipe. Meus quatro filhos, me fazendo lembrar sempre de Brasília, Lisboa, Barcelona e Florianópolis. Porque um adeus nunca é definitivo. É transcendental: traz mais e novos contos. Um dia, também, terei de lidar com os adeuses deles. Um de cada vez.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pior o certo que o duvidoso



Dois anos desde a despedida. Como o tempo voa, pensou. Dois anos que mais pareciam duas décadas. Viveu tantas coisas diferentes, mudou de cidade, conheceu novas mulheres, muitas mulheres, mulheres interessantes, mulheres que não se interessaram por ele. Afinal, foram vinte e quatro intensos meses.

Vez ou outra, por certo, lembrava-se dela. Do seu perfume, do seu sorriso. Lembrava-se mais naqueles momentos de vazio, quando levantava-se num domingo convencional, acompanhado, e por alguns poucos segundos desejava que aquele corpo nu fosse o dela. Não era. Nunca foi. Saltava de beijo em beijo, de braço em braço, de cama em cama com a esperança de que algum sentimento pudesse chegar aos pés daqueles. Nunca chegou.

O que chegou foi um e-mail. Frio, duas linhas diretas. Era um pedido de desculpas um tanto confuso, com votos de felicidade no meio e uma confissão de arrependimento. Por dois, três, quatro dias leu e releu aquele telegrama virtual. Tentava decifrá-lo, mas era impossível. Tentava decodificá-lo, buscava alguma pista naqueles duzentos caracteres.

Foi tudo uma invenção da minha cabeça?, pensava e repensava. Mas ainda podia escutar o seu nome na voz rouca sendo gritado porta afora durante a despedida. Era um eterno refém desse momento. Nunca devia ter continuado, podia ter regressado, aberto mão da segurança, apostado na loucura. Pois deu as costas ao duvidoso e seguiu seu caminho rumo ao certo.