segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A conversa que antecede o gozo (Parte 1)



― Tira a roupa, vai.
― Não, não... Você primeiro.
― Tem alguém em casa?
― Meus pais estão aqui.
― Não é melhor fechar a porta? Vai, fecha.

Maria afastou os ursos de pelúcia do colo e colocou-os cuidadosamente sobre o lençol rosa, acomodando-os nos travesseiros como se fossem peças de cristal. O Mickey vestido de mago e o Pooh fantasiado de Natal denunciavam que a garota já havia estado na Disneylândia. Ou talvez um ex-namorado a tenha presenteado, pensou Rubem. Depois do pequeno ritual, ela caminhou nas pontas do pé até a porta e a encostou com cuidado. A madeira grunhiu  suavemente. Maria morava com os pais e o irmão menor num apartamento simples, ainda que grande, no centro da cidade.

― Melhor assim... ― comentou Rubem no regresso da garota. Distraído, corria o dedo indicador na tela do smartphone. Aproveitou a oportunidade para colocá-lo no modo silencioso e depositou-o no criado-mudo, ao lado de um copo com água pela metade e um luminária sem lâmpada.
― Mas nada impede que entrem aqui se escutam algum barulho ― explicou Maria tentando captar a atenção do rapaz.
― Não trancou a porta?
― Não. Aqui em casa os quartos não têm chave.
― Põe aquela cadeira atrás da porta ― Rubem apontou à poltrona colonial perto da estante que misturava fotos de Maria e dos amigos com bonecas de pano. Certeza que pertence a uma mesa de jantar antiga, imaginou. Era o único objeto com aspecto de realidade naquele  ambiente que mais parecia ter saído de um catálogo da Barbie.
― Assim pelo menos podemos escutar alguma coisa se tentarem abrir a porta ― concluiu.
― Também tenho um irmãozinho pequeno ― ela adicionou.
― Também tem o quê?
― Um irmão. Ele tem oito anos.
― E onde está? ― Rubem inclinou-se à garota, preocupado.
― Na casa do vizinho.
― Ah bom! Sabe como são as crianças quando encontram algo que elas veem que está mal. Sei porque tenho dois sobrinhos que são umas pestes, não se calam se descobrem algo curioso, nem com chantagens, mesmo se digo que vou dar os jogos de videogame que tanto desejam ― voltou a relaxar-se. ― Mas vamos deixar de tanta conversa... Tira pelo menos a blusa, vai.
― Está bem ― consentiu Maria.

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