sexta-feira, 9 de março de 2012

Agora é tarde



Quarta-feira. Oito e quatro. Penélope chega ao trabalho. A calça jeans rasgada no joelho e uma blusa de seda preta. Aquele all-star branco, velho, encardido – seu xodó. Os cabelos presos sem qualquer cuidado, denunciando a pressa, num coque alto. E o bom dia... o bom dia arrastado, com meio sorriso no rosto.

Ainda é metade da semana. Senta-se na cadeira confortável e encara a pilha de papéis na mesa, esperando ansiosamente serem revisados. O chefe faz um aceno, está longe, com aquela expressão vazia que os chefes normalmente costumam ter. Ele goza com a quantidade de trabalho que Penélope tem. Sempre um babaca, ela pensa. De novo, o meio sorriso aparece.

Uns dois minutos são desperdiçados apenas olhando o calhamaço. Oito e onze. O dedo indicador resolve ligar o computador. Enquanto espera, Inicializando, Windows, carregando, colocar a senha, ampulheta... Tenta organizar sua quarta. Podia ser sexta, pensa. “Que clichê!” O chefe concentrado. Babaca. Mexe o mouse, a seta corre alucinada pela tela.

Oito e... esquece o relógio. Nem sexta é. Também decide esquecer os papéis, o trabalho. Abre o e-mail, e consta que só o peixe urbano se preocupa com ela. Segundos depois, de maneira automática, abre o Facebook. Diante do vermelho no balão de mensagens, e o número um à sua frente, agita-se na cadeira. Seu coração late, a blusa de seda tremula como uma bandeira ao vento, todo seu corpo vibra, sua, arde, sufoca-a. Podia ser dele. Seja dele, que seja dele, dele!, repete mentalmente prolongando a própria ansiedade com certo masoquismo.

Afinal, é dele. Então Penélope sorri por inteiro, dentro e fora, até abraçá-lo com a imaginação. Onde nos metemos?, se indaga. Mas é tarde. A pilha de papéis cresce sem parar. Os dias e as horas já são mais que ineficientes para contê-los.

Um comentário:

Anônimo disse...

Acho que conheço essa tal de Penélope...