quarta-feira, 14 de março de 2012

Diante da paixão, vivo



Penélope me liga. Do outro lado, reconheço sua voz. É a primeira vez que a escuto, mas parece que nos falamos desde sempre, aquele tom parece familiar.

― Sonhei contigo. Foi tão bom.

Escuto calado. Ela não sabe.

― Não queria acordar. Não queria abrir os olhos e voltar à realidade. Queria estar eternamente naquele sonho.

Remonto uma expressão doce do outro lado da linha. Não conheço o seu rosto, não sei como são seus olhos, seu nariz, seus lábios, seu pescoço. Continuo mudo.

― Tenho vergonha. Vergonha de descrever como foi. Estávamos juntos, tão juntos que nossos batimentos se confundiam. Não sabia mais o que era minha pele, onde começava minha carne, terminava minha alma.

Fecho os olhos na tentativa de trazê-la pelos cabos submarinos, fazê-la surgir diante de mim como num passe de mágica, pelas ondas eletrossentimentais da minha razão.

― Nenhuma palavra?

Ela não sabe. Quando a paixão se manifesta perco a voz. Não falo, não escrevo, não crio. Vivo.  Assim me sinto. “Dá-me a tua presença, Penélope”, penso. E então ela desliga, ciente de que despertou, e que ao voltar a adormecer estarei lá outra vez.

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