terça-feira, 6 de março de 2012

Direito de ir e vir



― Nada nos corrompe mais que as fronteiras. Vamos, tire as fronteiras, as divisas, os limites e o homem será o mais livre dos animais. Não sei como pode estar lá, em letras redondas e claras da Declaração dos Direitos Humanos que todos têm direito a ir e vir e, ao mesmo tempo, negarem-nos essa máxima.

Carlos repetia o pensamento pela enésima vez, enquanto lia o jornal. Na França, mais africanos ilegais eram capturados; na Itália, o governo expulsava os libaneses; no Brasil, criavam-se restrições cada vez maiores à entrada dos espanhóis. Selma enchia o açucareiro enquanto esperava a água aquecer.

― Por mim... sabe Selma?, por mim acabava com essa história de restringir o ser humano de voar. Que regra mais imbecil é essa que nos impede de desfrutar de toda e qualquer parte do mundo? Em câmbio, para poder ser, para poder pertencer, tenho de ter: um papel, um número, uma carta de aceitação... Não entendo, realmente não entendo.

Selma ouviu o apito do microondas e levantou-se com preguiça. Carlos aumentou o tom da voz para que ela continuasse a ouvi-lo.

― E, no final das contas, as pessoas saem porque querem, porque têm interesse em descobrir o que há por aí... é estúpido impor tantos obstáculos. São vidas, meu Deus, e não há nada mais sublime e nada mais terreno que a existência. Qual o direito que alguém tem de definir como e onde vou viver a minha?

― Chá? ― perguntou.

Ele fez um negativo com a cabeça e alcançou o croissant amanteigado no prato. De súbito, um alguém entrou na sala e anunciou que a reunião começaria em cinco minutos. Carlos acudiu-se ao relógio de parede, preocupado.

― Prefiro a liberdade perigosa à escravidão pacífica ― interviu Selma. ― É o que o meu avô dizia e também é o que acredito.

Nenhum comentário: