quinta-feira, 1 de março de 2012

A irrealidade de um sonho real



Não era um sonho muito apagado. Talvez eu queira dizer deformado, queira dizer esfumado. Não era um sonho como esses sonhos que a gente sonha quase sempre. Era um sonho de carne e osso, separado por litros e litros de água salgada. Um sonho daquela categoria que alguns ousam dizer ser real – enquanto outros preferem etiquetar como pesadelo.

O fato é que toda noite, dia após dia, se encontravam nesse cenário onírico. No começo, como todos os começos dessas histórias que ninguém sabe como termina, o encontro era fortuito, esporádico e, arrisco soprar: por vezes evitado. Acometia sobre eles, sobre os dois – porque o delírio era recíproco –, uma espécie de sonho lúcido.

Difícil afirmar quando tudo mudou. Difícil saber se realmente mudou, ou se apenas baixaram as guardas e se entregaram, finalmente, à mudança. Aqueles momentos espaçados, aquelas viagens lancinantes pelo mundo sonial, passaram a ser mais frequentes, mais presentes, mais querentes. Sabiam que o desejo era mútuo, e submergiam no silêncio onírico das confissões por escrito.

Escreviam, e escreviam, e escreviam para se comunicar nos sonhos em branco e preto. E amavam essa calma com angústia, como amavam a angústia de um dia poderem se tocar com um sossego conciliador. A certeza de que sempre adormeceriam com esse encanto sublime os preenchia cada vez mais: entre uma taça e outra de tinto, entre sentidos, poemas e contos, entre pontos percorridos pervertidamente em suas imaginações.

Era inverno no verão dela, era verão no inverno dele. E sentiam que quaisquer milhares de quilômetros eram perfeitamente transponíveis para despertar um sonho. De olhos bem abertos, com os corações aos pulos, alimentavam o desvario da realidade vindoura.

Um comentário:

Anônimo disse...

A realidade de um sonho irreal.