sexta-feira, 30 de março de 2012

Penélope



Às onze da noite soou a campainha. Uma, duas, cinco vezes. Vezes mais longas, com intervalos mais curtos. Em todas, hesitei em atender – deitado no sofá da sala, sonolento, com a TV ligada, parecia produto de um sonho ou do filme que se arrastava na tela.

Quando abri a porta, a chuva invadiu o hall. Franzi a testa e puxei-a para dentro. Estava ensopada. Logo criou-se uma poça d’água. Fitei-a com a maquiagem borrada, uma mecha de cabelo colado à bochecha, as mãos trêmulas. Apesar da dúvida, de não saber por que estava parada à minha frente, daquele jeito, àquela hora, a amei com todas as forças.

― Já quis ser arquiteta ― ela balbuciou.

Minha expressão de que não entendia nada foi em vão. Continuou:

― Sou alérgica a penicilina. Tenho medo de dirigir. Estalo os dedos sem perceber toda hora. Gosto de dançar sozinha. Nunca fui a um enterro. Gosto das luzes dos semáforos quando chove. Tenho mania de morder os lábios. Gosto de vinho mais do que de muitas coisas na vida. Peço desculpas mesmo quando não devo. Fico sem respirar até ver o “aprovado” na máquina de passar o cartão de crédito e finjo que sei quando alguém diz “sabe o fulano?”.

À medida que seguia, o que parecia sem sentido, ficava indecifrável.

― Tenho pressão baixa. Fico ansiosa fácil. Falo rápido. Não uso gírias. Não costumo ligar para as pessoas, e muitas vezes nem atendê-las. Me arrepio fácil. Não costumo usar salto alto. Minha flor preferida é orquídea. Uma das minhas maiores saudades incompreensíveis é do meu avô materno, que não cheguei a conhecer. Às vezes minha mente começa a gritar e não consigo parar. Sempre bato meu dedinho em algum móvel pela casa. Choro quando alguém chora.

A água que descia de seu corpo franzino (parecia mais magra agora que nunca) começava a escorrer para a cozinha.

― Nunca joguei boliche. Faz cinco meses que não ligo a TV do meu quarto.  Amo usar vestidos. Chorava escondido quando mudei de cidade para não magoar meu pai. Tenho uma visão excelente, embora o olfato não seja tão bom. Prefiro decote que pernas de fora. Respiro baixo. Uso água termal só de frescura. Esqueço-me de beber água. Esqueço-me de comer. De vez em quando vou à biblioteca só para pensar melhor entres os corredores de livros. Já tive cabelo vermelho.

― Misturo histórias que aconteceram com as que imaginei. Gosto quando o dia vai acontecendo sem planejamento. Sou péssima para fazer escolhas rápidas e planas. Descrevo as coisas de forma ineficaz. Tenho mania de escrever sobre amor, mas não sei nada sobre...

Não a deixei terminar. Mergulhei nos seus braços e banhei-me daquela mulher que chorava lágrimas negras e se chamava Penélope, como na mitologia.

5 comentários:

Juliana disse...

Com certeza vários corações femininos vão disparar ao ler isto.
É de felicidade, em saber que mais uma de nós, mais uma exemplar da espécia(sim, me identifico com Penélope, como toda mulher) conseguiu algo maior do que dominar o mundo: o coração de um outro, de outra espécie que... deixa pra lá!
Ame, ame-a com toda a beleza que ela deve ser amada, a não ser que por palavras, palavras estas que são belas. Parabéns!
=)

Juliana disse...

não me importo com os erros de digitação! hehehe

Anônimo disse...

"...duas solidões protegendo-se uma à outra" (Rainer Maria Rilke).

Karla disse...

Fiquei sem fôlego.

Lindo!

Mary Jo disse...

Gostei. Aliás adorei e a cada frase que lia apenas pensava: "Como eu gostava de um dia deixar a simplicidade e revelar tudo o que de complicado há em mim." =)