sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parabéns para vocês, família querida



Minha mãe não me bateu naquele dia, quando ajoelhei no carpete, juntei as mãos com em reza e disse com um pesar enorme: ― Ai, meu deus, chegou a hora da minha surrinha...

Tinha seis, talvez sete anos. Ela segurou a risada, largou o chinelo, me deixou plantado na mesma posição e foi gargalhar longe de mim. Não apanhei por uma reação engraçada, mas também ingênua.

Como quando estava na consulta e soltava piadinhas toda vez que a médica fazia perguntas. Era quase um stand-up comedy hospitalar. Isso também aos seis, sete, oito anos – a memória me trai agora, aos 28, 29. Pois a doutora, coitada, cansada das brincadeiras, soltou esta: ― Sabia que você é muito engraçadinho?

Achei graça, mas a declaração me pareceu uma tremenda injustiça naquele momento. Para reparar a situação, respondi: ― É porque a senhora ainda não viu o meu pai...

De fato, meu pai é o rei das piadinhas. Sempre tem uma no bolso, e sempre pega no pé da minha mãe. Aprendi que é sua forma de expressar carinho, amor. Tenho amigas que se queixam que às vezes as sacaneio demais – não sei se realmente passo do limite ou se elas ainda não entenderam que nesse aspecto sou tal qual o meu pai.

Minha irmã, não sei quantos anos tínhamos e vou esquecer essa coisa de idade, certa vez revelou que gostaria de ter uma irmã e não um irmão. Confesso que aquilo pesou, e passei o resto da infância buscando a sua aceitação. Até mesmo quando fazia “macaquices” na rua era para chamar sua atenção. E o último pedaço de bolo? Nunca era meu. Era dela. Queria que fosse dela. Porque o seu bem-estar é o meu conforto, a sua segurança é o meu sossego.

Tenho a beleza e a força das mulheres ao meu lado. Se consigo desarmá-las com uma frase engraçada ou com um sorriso maroto, elas me conquistam pelo cuidado e pela doçura. Fui educado para respeitá-las, tratá-las bem. Devo tudo à minha mãe, que me ensinou o que é ser parceiro de uma mulher. Lembro que a enchia de beijos e a anunciava como a mais bonita do mundo.

Gostava quando deitava comigo na cama e coçava minhas costas. A sua leve presença me tranquilizava. Sempre fomos unha e carne, e já chegamos ao cúmulo de passar seis horas dentro de um Carrefour, fazendo compras – essa história é famosa na família. Por essas e outras, é a ela que devo parabenizar hoje, dia em que completo 29 anos. A ela, ao meu pai, à minha irmã.

Obrigado. Muito obrigado aos três. Divido cada voto recebido, cada “felicidades” com vocês. Sou quem eu sou porque tive quem eu tenho.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Gente de alma livre


― Tenho curiosidade de ver as coisas que escreves. Ando tão longe dos contos e da poesia que preciso embriagar-me com outros autores. De preferência os bons. E não te sintas pedante ou não penses que falar de ti e dos teus textos é vangloriar-te gratuitamente. Se não nos vendermos, quem o fará?

― Ainda estou no universo mágico de “apenas escreva, o restante vem disso”. Mas sei que mais cedo ou mais tarde tenho de botar a cara à tapa!

― Terei ao menos o prazer instantâneo de ler algum dos textos que comentaste?

― Claro! Mas tenho que pegá-lo no meu computador, que está no meu avô. Deixei na casa dele antes de viajar e ainda não passei para buscá-lo. Mas eu escolho qual mandar... Ah, como esqueci de te falar? Comentava com meu avô sobre você um dia desses e eis que ele solta: “já gostei desse rapaz, é como eu. Busca o que quer e o destino faz o resto. Quem diria que um português, que vagava pelo mundo trabalhando feito um cão, entraria num navio rumo à Argentina e, numa aposta de jogo de baralho com os amigos da cabine, apostaria descer no Brasil? E cá estou. Gostei. Gosto de gente como a gente, gosto de gente de alma livre”.

― E já gostei imensamente do teu avô, ainda que ele seja sportinguista...

― E vascaíno.

― A gente releva... as pessoas de alma livre às vezes têm times podres.

― Hahaha, como você.

― Sabia que diria isso.

― Foi previsível.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Certeza de existir




Eu já tenho a certeza de existir. Estranho isso. É como se tivesse apenas que aguardar o momento. Já sei meu nome, tenho minha certidão de nascimento. Agora toca esperar. Sem pressa.

Esperar – tal verbo que vocês conjugam com dificuldade, haha. Será que também serei assim: ansioso, urgente, inquieto com a vida? Engraçado, por enquanto não sinto nada disso: e sim uma convicção. Que talvez seja uma convicção tola, mas é real.

Ontem, enquanto ouvia a conversa, pensava: que sortudo sou! É que atualmente – penso eu, mas o que sei sobre isso? – está em extinção essa cumplicidade, esse alicerce firme, essa vontade de fazer valer que vocês sedimentaram. Não só: também há uma escassez de alma, de bondade, de respeito.

Nossa, parece que seremos felizes. Eu já tenho a certeza de existir. E também tenho a certeza de que será uma existência e tanto!