quinta-feira, 3 de maio de 2012

Apaixonar-se pela paixão



Na semana anterior havia completado três anos solteira. E pela primeira vez sentia uma necessidade quase patológica de partilhar o seu dia-a-dia com alguém.

― Finalmente! ― vibrou a melhor amiga ao saber da abertura.

Alcançaria os trinta em quatro meses. E a ânsia por um compromisso parecia haver baixado sobre ela com toda a força, assim como os primeiros fios brancos. A mãe que, antes, quando perguntava sobre affairs e namorados recebia uma resposta desleixada, um meio-sermão sobre o papel feminino na sociedade atual e seu fascínio pela independência, começou a perceber a filha diferente. Na primeira oportunidade, desferiu a dúvida:

― Apaixonada?

Ela desconversou. Somente após uma sutil insistência, comentou en passant sobre um antigo caso renascido das cinzas, mencionou algo sobre uma aventura louca de fim de semana, citou um recente rolo sem importância.

― O desejo da paixão ― interrompeu então a matriarca ― é um estado de espírito que antecede o ser pelo qual nos apaixonamos.

― Você está querendo dizer que...

― Estou querendo dizer que não nos apaixonamos por ninguém. Apaixonamo-nos, de fato, pelo sentimento de apaixonar-se, pela vontade de tal ação ― rematou a senhora.

Diante da desconstrução da mãe, pensou nos casos antigos, do tempo em que era uma solteira convicta. Percebeu que havia dispensado ótimos pretendentes porque não estava apaixonada por eles, e que agora tentava encaixar nos seus planos qualquer um que lhe desse atenção.

― Será então que a paixão só é possível no desespero? Na solidão? Na baixa autoestima? ― quis saber a filha.

Mas não houve resposta. O que viu foi dois ombros levantarem-se em sincronia com as sobrancelhas.

Um comentário:

Anônimo disse...

Hmm...