quarta-feira, 16 de maio de 2012

Com saudade? Então volta



Entre contos meio tontos e crônicas xoxas, vou preenchendo o Até Amanhã com material de quinta categoria. O fato é que muitos me consideram por aí um escritor nato e hereditário, e vez ou outra tenho de agradar a opinião alheia – ainda que sempre me ria com o predicado “escritor” atrelado à minha pessoa.

Tenho me virado como posso para continuar em Barcelona. Um jornalista que dá aulas de português, faz traduções e se envolve com revisão e correção de texto é mais versátil que um macaco de circo. E possui muitas similaridades com o símio. Entretenho meus clientes-alunos como posso e faço o que posso por uma banana (um trabalho, quero dizer).

Às vezes me rebaixo a qualquer cifra. Há alguns meses resolvi colaborar com um site de viagens… ou melhor, uma rede social de viajantes. Pagavam-me a módica quantia de um euro por tradução. Inicialmente me venderam “o peixe” como sendo dois ou três parágrafos por experiência. Depois vi que alguns relatos tinham até 15 parágrafos! Ainda lambi minhas próprias bolas por uns dois meses, sem condições de rejeitar a esmola. No final, recebi 15% do valor se tivessem pago o preço justo de tradução.

Coisas do mundo freelancer. Mas me perguntem se quero voltar ao Brasil e ganhar 2, 4, 7, 10 mil reais? A resposta é não. Não suporto a ideia de me imaginar no país tropical. Não hoje. Não agora. E tudo que tem sido dito ou repetido (e como repetem tudo! culpa do Facebook!) sobre minha terra natal me dá um asco sem fim. Podem chamar-me de mal agradecido, o fato é que quando penso num possível regresso a tristeza se apossa de mim.

Pior que os efeitos colaterais são talibânicos. Se alguém me convida para uma festa brasileira, para um restaurante tupiniquim, minha resposta é um não imediato e definitivo. E me põe nervoso o saudosista, de qualquer nacionalidade, de qualquer idade e credo. Se quisesse tomar Brahma e comer feijoada toda semana não cruzaria o Atlântico, se minha intenção fosse estar rodeado de conterrâneos em vez de misturar-me à cultura local ficaria no meu porto seguro.

Em Roma sê um romano, diz o ditado. Então faço o que posso para manter-me na arena do Coliseu, lutando pela sobrevivência. E esbravejem e esperneiem contra o que quiserem: isso de pátrias e fronteiras é uma estupidez, isso de nacionalismo é patético. Gosto de pertencer a onde estou – e a todos os lugares em que passei e onde nunca estive.

4 comentários:

Catarina disse...

Amei Gustavo!

Sandryne Barreto disse...

Que saudade do meu crônistra preferido. Tenho estado por aqui, Gu. Mas você sabe da minha queda pelas suas crônicas...e quanto a um lugar pra chamar de seu, este chama-se MUNDO. Xero pra tu, saudade.

Juscelino Mendes disse...

Ainda tem gente que pensa e sabe desfrutar da liberdade que se lhe aparece na vida. Parabéns, Gustavo!...

Bípede Falante disse...

1. Entendo perfeitamente esse aceitar todos os trabalhos. Passei por isso.

2. Se eu morasse em Barcelona, não saía daí!

3. Não é a toa que o planeta é redondo e serve de casa pra todo mundo.

Beijo

BF