quinta-feira, 28 de junho de 2012

Senão, qual é o propósito?



Sou um obsessivo e volto e meia retomo assuntos que já escrevi. Decidi, por curiosidade, buscar crônicas do passado. De um passado recente, de menos de um ano. Não me arrisquei a mexer nas gavetas do Dois em Xeque – um blogue bate-papo que mantive com a Mayara Paz durante alguns meses de 2008 – ou do “famoso” 7 Cronistas Crônicos.

Essa obsessão é quase sempre relacionada aos sentimentos. Tenho a necessidade quase constante de abordar o tema, alimentar o universo do coração com palavras e mais palavras – escritas ou faladas.

Pois uma amiga me pediu, com uma ingenuidade sôfrega: escreve sobre mim. Estranho. Senti-me um não-sei-o-quê. Um não-sei-o-quê mesmo, porque nenhuma conclusão do que senti me surge ou surgiu. A verdade é que ela queria que escrevesse sobre ela e sua confusa relação com o ex-atual-namorado. Não sei se estes meus pensamentos vão tocá-la, e admito mesmo que nasceram pensando em outro caso, em outro amigo.

Muitas vezes me pergunto: qual é o propósito de um namoro desgastante? Mais que isso, às vezes questiono por que nossos comportamentos são diferentes entre um amigo ou amiga e um namorado ou namorada. Afinal, amor não é amizade com sexo? Ora, parece sim, mas com vários ingredientes mais, como o ciúme, a neurose, a posse, o descontrole, a necessidade de atenção.

Evoco novamente a sabedoria de dona Sandra, minha mãe. Ela sempre argumentou que um relacionamento, ainda mais despido de tantas responsabilidades mundanas, tem de ser leve e agradável. Senão, qual é o propósito? Cobranças e desconfianças nos tornam pesados e sérios e chatos e inquietos e incomodados e tristes e… o cotidiano por várias vezes já não se incumbe de ser tudo isso?

Perdão, meus caros leitores, minha obsessão pode até parecer doença. O que me custa, de verdade, é ver pessoas tão inteligentes e alegres pendentes de um desconforto psicoemocional que as retira do propósito fundamental da união. Certas coisas da paixão nós nunca aprendemos a aprender.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Vista de cerca, toda la gente es rara



Venhamos e convenhamos, jogador de futebol é um tipo bem estranho. Como é época de Eurocopa e me vejo cercado de mulheres assistindo às partidas, normalmente tenho escutado comentários sobre a beleza dos atletas. Não que não façamos o mesmo quando vemos tênis feminino, vôlei de praia, ginástica olímpica ou a seleção argentina de hóquei de grama.

Eu convivi com futebolistas quando fui setorista do Avaí, em Florianópolis, e assino a afirmação: poucos se salvam. Contamos nos dedos quem tem mais que um pezinho bonito – no sentido figurado, lógico. Estou pisando em ovos para não me interpretarem mal, mas o fato é que jogador que é jogador possui outro tipo de inteligência.

Estou fugindo do tema central. O contexto era para dizer que eles são estranhos, que ninguém escapa de ser estranho. Na tevê, se mostram impecáveis e imponentes, desfilam habilidades, distribuem passes milimétricos, despejam dribles desconcertantes, constroem e destroem ilusões. Agora vai ver os cacoetes, as manias, os tiques de cada um. Nem o Guardiola salva, revelou-me um amigo que já presenciou uma conferência de imprensa do ex-treinador culé.

A verdade é um mantra que tenho repetido dia e noite: de perto, todo mundo é estranho. A intimidade “fode” tudo, com o perdão da palavra. Ou não. Uma pessoa bonita, digo, fisicamente bonita, pode causar asco em minutos. O inverso também ocorre. No meu time, pouco me importa se o cara é raro, se come meleca, tem baba no canto da boca, só caga pelado, tem mania de atenção, fica agressivo quando bebe, faz barulho quando ri, tem medo de arroz, tem tara por sovaco, gosta de fazer sexo com meia… o importante é que jogue bem.

E na amizade? E a mulher que estou afim? Mário Quintana dizia que os amigos são os nossos chatos prediletos; Nelson Rodrigues que o amor é a idolatria dos defeitos e não das virtudes. Faço um adendo: gostar é naturalizar as esquisitices do próximo – é admiti-las, ignorá-las, repeti-las e, inclusive, sensibilizar-se por elas. Al final, vista de cerca, toda la gente es rara.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Amar sem amar



Caros amigos, tinha a crônica desta semana pronta. Prontíssima. Lida, relida, revisada, aprimorada. Como deve ser. Escrever é a arte de reescrever. Não sei se a frase é de Proust ou Barthes.

Mas aí ontem, Dia dos Namorados no Brasil, Facebook salpicado de recadinhos carinhosos e amorosos, e a veia revoltada dos meus vinte anos saltou-me à testa. Uma andorinha não faz verão, diz o ditado. Mas duas já podem criar uma pequena revolução – ainda que dure alguns minutos, seja patética e termine, como quase sempre, num discurso bonito e vazio.

Esta é a efêmera conversa com uma amiga, via chat, na noite de 12/06/2012:

GJ: – Vamos criar a campanha: “Abaixo a monogamia!”. Por um mundo promíscuo...
NC: – Ai, credo. Quanta amargura a nossa. Deixa o povo amar em paz.
GJ: – O povo não ama como se deve amar. O povo ama convencionado, e torna da convenção do amor uma vitrina pública.
NC: – Como se deve amar?
GJ: – Sem amar.
NC: – Amar sem amar. Como funciona?
GJ: – Por que você está viva? Sei lá, fisiologicamente falando...
NC: – Prossiga...
GJ: – Porque come, bebe, dorme... de forma natural, sem estardalhaço. Pois o amor seria mais amor se fosse “naturalizado” em nossas vidas, e não se houvesse esse alvoroço todo em torno dele. O alvoroço o alça a algo exclusivo, a meta de vida, a desafio, a raridade... O amor devia ser tão básico e vital quanto todas as funções básicas e vitais que nos fazem continuar respirando. E tudo que vai contra isso não me convence da sua verdade... melhor, da sua pureza e autenticidade.
NC: – Sem mais. Concordo.

Na próxima quarta juro que não sucumbirei à tentação de mudar o texto na última hora.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Desfrutar o agora



Brasileiro que é brasileiro tem duas particularidades natas e hereditárias. Uma delas aprendi há pouco tempo. Aprendi não, uma catalã me despertou para ela. Brasileiro que é brasileiro desfruta o momento, vive o agora. Tenta aproveitar ao máximo o que tem para ser aproveitado hoje.

É cultural. E mais que cultural, é histórico. Sempre tivemos muito até que nos usurpassem. Pertencemos a um povo que descobriu cedo que a injustiça é mais comum que o mérito, e talvez o amanhã nos prive dos ganhos de todo uma vida.

Mas não quero ser apocalíptico ou pessimista. Essa minha amiga explicava, muito didaticamente, sua experiência no Brasil – num acampamento de Sem Terra no Maranhão. Contou que num determinado almoço de festa a comida que sobrou não foi guardada para o dia seguinte ou para o jantar, como supunham – e desejavam – os europeus que ali estavam. “A gente viu aquela quantidade de alimentos e pensou: amanhã vamos comer bem de novo”.

Comer bem, algo um tanto raro durante sua viagem. Talvez ainda mais raro no cotidiano daquelas pessoas. O fato é que diante da fartura, os Sem Terra convidaram mais um sem-número de bocas. O que tinham ali, naquele instante, merecia ser aproveitado ali, naquele instante.

Essa anedota me remonta à minha infância. Eu devia ter 12 ou 13 anos e recebia R$ 5 semanais dos meus pais. Estreava-me no ofício de gerenciar dinheiro – e o fazia muito mal. Cada vez que tinha a nota rosa na mão, corria a uma banca de jornal: ia um tanto de figurinhas do Campeonato Brasileiro e outro tanto de jujubas.

Um dia, minha mãe, numa conversa serena, me explicou a importância de economizar, de não gastar tudo de uma só vez e em “porcarias”. Concordei com ela – por teimosia e para mostrar-lhe que era capaz de não comprar tudo em besteira – e aceitei o desafio. A partir daí, os R$ 5 tornavam-se R$ 10, R$ 12, às vezes R$ 15 no fim do mês.

Engraçado, porque ao final de tudo, esse pequeno ensinamento moldou meu caráter financeiro. Não sou do tipo que gasta com qualquer coisa, e posso ser bem mão fechada. Aprendi, porém, que para desfrutar do agora, melhor não ter planilhas de gastos ou folhas de controle… melhor livrar-se da paranóia dos números e buscar o equilíbrio.

Mas eu disse que o brasileiro tem duas particularidades. Pois a outra é carregar a bandeira do Brasil de cabeça para baixo. Reparem.