quarta-feira, 6 de junho de 2012

Desfrutar o agora



Brasileiro que é brasileiro tem duas particularidades natas e hereditárias. Uma delas aprendi há pouco tempo. Aprendi não, uma catalã me despertou para ela. Brasileiro que é brasileiro desfruta o momento, vive o agora. Tenta aproveitar ao máximo o que tem para ser aproveitado hoje.

É cultural. E mais que cultural, é histórico. Sempre tivemos muito até que nos usurpassem. Pertencemos a um povo que descobriu cedo que a injustiça é mais comum que o mérito, e talvez o amanhã nos prive dos ganhos de todo uma vida.

Mas não quero ser apocalíptico ou pessimista. Essa minha amiga explicava, muito didaticamente, sua experiência no Brasil – num acampamento de Sem Terra no Maranhão. Contou que num determinado almoço de festa a comida que sobrou não foi guardada para o dia seguinte ou para o jantar, como supunham – e desejavam – os europeus que ali estavam. “A gente viu aquela quantidade de alimentos e pensou: amanhã vamos comer bem de novo”.

Comer bem, algo um tanto raro durante sua viagem. Talvez ainda mais raro no cotidiano daquelas pessoas. O fato é que diante da fartura, os Sem Terra convidaram mais um sem-número de bocas. O que tinham ali, naquele instante, merecia ser aproveitado ali, naquele instante.

Essa anedota me remonta à minha infância. Eu devia ter 12 ou 13 anos e recebia R$ 5 semanais dos meus pais. Estreava-me no ofício de gerenciar dinheiro – e o fazia muito mal. Cada vez que tinha a nota rosa na mão, corria a uma banca de jornal: ia um tanto de figurinhas do Campeonato Brasileiro e outro tanto de jujubas.

Um dia, minha mãe, numa conversa serena, me explicou a importância de economizar, de não gastar tudo de uma só vez e em “porcarias”. Concordei com ela – por teimosia e para mostrar-lhe que era capaz de não comprar tudo em besteira – e aceitei o desafio. A partir daí, os R$ 5 tornavam-se R$ 10, R$ 12, às vezes R$ 15 no fim do mês.

Engraçado, porque ao final de tudo, esse pequeno ensinamento moldou meu caráter financeiro. Não sou do tipo que gasta com qualquer coisa, e posso ser bem mão fechada. Aprendi, porém, que para desfrutar do agora, melhor não ter planilhas de gastos ou folhas de controle… melhor livrar-se da paranóia dos números e buscar o equilíbrio.

Mas eu disse que o brasileiro tem duas particularidades. Pois a outra é carregar a bandeira do Brasil de cabeça para baixo. Reparem.

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