quarta-feira, 25 de julho de 2012

Colecionando inimigos



Depois do “Olá, prazer. Meu nome é Fulano”, vem a famosa interrogação:

– De onde você é?

É praxe. Desse protocolo nascem as etiquetas que colamos nos brasileiros que moram fora do país. Carrego as minhas, ainda que raramente as pessoas descubram de onde eu sou – quando resolvo fazer esse joguinho imbecil do “sou de um lugar que não tem sotaque”. Isso vem desde Floripa, e os manezinhos, gaúchos ou paulistas arriscavam mil e umas cidades sem nunca acertar.

Já cansei dessa brincadeira. E também das tais etiquetas. Ao primeiro sinal do “De onde você é?”, solto um duro e seco:

– De Brasília, infelizmente.

Não tenho vontade de responder a essa pergunta. Logo, também não a faço. Sou o jornalista menos curioso de toda a história do jornalismo. Mas, vá lá, é porque tenho preguiça de brasileiro – para um gringo minha curiosidade aflora. Depois, trata-se de uma afirmação das mais verídicas a “de Brasília, infelizmente”.

Brasília é chata e boba, feia não. Quer dizer, antes de cair na infantilidade das ofensas, retifico: é chata e boba depois dos dezoito. Brasília é uma cidade do cara…mba quando somos crianças. Ah, e quando nos aposentamos e temos os filhos fora de casa e a vontade de desfrutar a calma e a tranquilidade.

Não me convenci de nada disso. E quebro meu próprio argumento com uma coisa: Brasília não tem praia. Ponto final. Eu bem podia dizer do entorno, das aventuras ecológicas que orbitam a capital, mas praia (para mim!) é praia: mar, areia, aroma, clima. Além disso, Brasília é tão programada e tão planejada, tão pretensa à organização, que a espontaneidade foi para o beleléu.

Só de falar no nome da cidade já arrepio. É de pensar em ter de voltar a viver lá. Sou de Brasília, infelizmente – e confesso que já andei dizendo que sou de Florianópolis, só por diversão. Da próxima vez vou arranhar meu péssimo sotaque português e dizer que sou lisboeta. Será que cola? Acho que sim, já ouvi muitos comentários de que não pareço brasileiro.

Para falar bem a verdade, como comentou o Alex Gruba, a nacionalidade não existe, a nacionalidade é um romance. Felizmente, sou do mundo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Disputa de saque



Reproduzo um diálogo enviado por um amigo. Um diálogo, aliás, que me fez pensar. Será que tudo é disputa de saque até encontrarmos a pessoa correta? Quem jogou pingue-pongue (pingue-pongue! que palavra mais agradável de se falar e se escrever!) sabe o que me refiro.

Pois aqui vai:

– Isso deixou de ser “brincadeira” há um bom tempo. Não vou apagar teu número por motivo nenhum. É o tipo de amor que não me importa se sinto sozinha, se tenho a certeza dele sozinha. Foda-se. E já te disse isso algumas vezes.

– Eu também.

– Inclusive quando te dei um “livro”.

– Você já jogou pingue-pongue na vida?

– Já.

– Então sabe o que é “disputa de saque”?

– Sim, prossiga.

– São todas as outras de antes e de agora. Elas são “disputas de saque”. Não estava valendo, não está valendo. É como me sinto. Como se elas não “valessem”, e sim você. Você é o jogo principal, é a verdadeira “disputa”. Elas, disputas de saque.

– E isso tá sendo ruim?

– De jeito nenhum. A espera para te ter está sendo complicada. Por mim, estava te contando isso no pretérito perfeito, com a perfeição da sua cabeça no meu peito. Ambos nu.

– Por mim também. Nunca te escondi isso.

– Eu sei. Digo porque tinha essa vontade de te dizer outra vez.

– Eu ando tão desacreditada em tudo que a única coisa que carrego com certeza é a de nós. Mesmo quando tento não acreditar pra parar de doer por não sermos ainda. Que confusão. E que dramática.

– O que é um jogo se não um drama?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Há burrices… digo, crenças recompensadas!



Eu sou cercado por ingenuidades envolvendo dinheiro. Já paguei R$ 15 num tapete comum que devia valer 1/5 disso; R$ 25 numa carteira que me arrependi 30 segundos depois, não usei uma vez sequer e tive vergonha de voltar na loja para trocar; R$ 4 e pouco numa fita crepe… numa fita crepe! Já comprei um computador que demoraram três meses para me entregar e um CD de jogo via internet (nos idos da rede mundial) que veio errado, então pediram para que eu enviasse de volta e me mandariam o correto. Até hoje, neca.

Mas nada supera o do Raval. (Antes de tudo, Raval é um bairro de Barcelona famoso pela imigração árabe. Está cheio de indianos e paquistaneses. O local, inclusive, ganhou o apelido de “Ravalistan”, uma menção ao Pakistan.)

Amanhã volto à festa onde dei 20€ a um vendedor de cerveza-beer à espera do troco. A história beira a estupidez. Mas só beira. Ela tem muito mais de crença na honestidade que um sentido de burrice. Pelo menos é assim que prefiro contá-la. Ou encará-la. No fim das contas, o que foram 20€ para uma noite que me presenteou com duas pessoas formidáveis.

Alto lá. Não vou colocar o carro na frente dos burros (por que vocês automaticamente pensaram em mim?). Já disse que cometo ingenuidades crassas e pcfariasínicas quando o assunto é dinheiro, e a do Raval, a dos 20€, foi a seguinte: a latinha na rua vale 1€ e decidi comprar uma com a nota azul. Acreditei no amigo paqui quando ele disse que não tinha troco, que iria trocar e voltava já. Acreditei não porque sou um quadrúpede da espécie asinina, e sim porque trata-se de um povo muito justo e idôneo por natureza.

Pois ele sumiu no meio da multidão, deixando comigo dez cervejas. O mais cômico foi a mistura de raiva com esperança – guardei o pack do paqui como se não fosse meu, e não era!, até que resolvi vendê-lo e reduzir meu prejuízo. Passei a noite toda remoendo a minha idiotice, digo, a minha fé na humanidade, sem dar-me conta de uma frase lançada por alguém no meio da noite:

– Há males que vêm pra bem…

Essas frasesinhas de efeito. Blergh! Justo nessa noite, porém, conheci a Clau e a Lili – duas mulheres interessantíssimas, dois corações vibrantes que se mesclaram à minha existência. “Há males que vêm pra bem.” Não, não. Prefiro pensar que há burrices recompensadas. Digo, fé na humanidade! fé na humanidade! Pouco me importa se tiver de perder 20€, 50€, 100€ a cada ano em troca de amizades tão puras e revigorantes. Tenho certeza que aquele paqui não tem um pack de tão bons amigos como eu tenho.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Aula de catalão*



Decidi aprender uma língua nova. Sabem como é: ultrapassei os 50% dos 27, num ritmo galopante até os 30 e, se não for agora, se adiar isso por preguiça ou cobiça, receio perder a chance que a jovialidade ainda me oferece. É que o tempo é arisco, meus caros, é traiçoeiro, fugidio.

Sem namorada, sem casa, sem emprego, sem inspiração literária e sem meu cartão do banco (que foi misteriosamente bloqueado), fuxiquei na internet e encontrei um curso de catalão. Minha consciência, e alguns amigos, estranharam: “Você podia aprimorar o inglês, investir no espanhol, interessar-se pelo francês, pelo alemão, pelo italiano... mas não, colocou nesta teimosa cabecinha que é o catalão, justo o catalão”, esbravejou meu alter ego.

De médico e louco todo mundo tem um pouco. Outros, como eu, têm muito. Então cá estou entre os jo sóc e os fins demà do idioma. Ainda só sei o básico. João és el meu amicme’n vaig a casa e són les set menys quart. Arranho uma ou duas sentenças após quatro módulos de “aulas”. O catalão é tão próximo do português – tanto ou mais que o castelhano – que se torna até fácil.

Também não pensem que é só na Catalunha que o idioma é posto em prática. Não senhores! Mais de 10 milhões o utilizam. O catalão é a língua oficial de Andorra. Repito: de Andorra! Ou seja, quando for para lá, irei me comunicar com classe e desenvoltura, como se fosse um... um... uma pessoa que nasce em Andorra. Conseguem vislumbrar o meu empreendedorismo cognitivo?

Já era para eu estar em Barcelona, essa é a verdadeira verdade em abraçar o catalão com tanta força, de cravar minhas unhas nas suas costas e aconchegar o rosto no seu ombro. Meu coração salta, dá um duplo twist carpado, um mortal ao inverso quando ouço falar das Ramblas, do Parc Güell, do Montjuic, da Gràcia. Nunca entenderei bem o porquê desta ligação tão íntima e visceral – não há o que entender, há o que ser vivido. 

“Barcelona é uma cidade feiticeira. Mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem darmos por isso.” (Carlos Ruiz Zafón)

Aprendo catalão para descodificar as mensagens que Barcelona sussurra nos meus sonhos. Aprendo catalão para sentir o insentível, absorver o inabsorvível, narrar o inarrável. Poucas vezes na existência temos tanta certeza emocional de algo. Poucas vezes damos autonomia à intuição, cerramos os olhos para sermos conduzido pelo vazio.

Esta simplicidade é o meu sangue. Este desleixo, o descomprometimento, a irresponsabilidade, a subversão perante o ordenado, a regra, o senso, o mesmo é o meu afrodisíaco. A minha paixão não está propriamente nas coisas, nos gestos, nos atos. Não reside em ter ou ser. A minha paixão não é estado de espírito, não é mensurável, não é valorada. A minha paixão é. Enquanto eu ainda a for.

* Texto de 17/10/2010 incrivelmente recente.