quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A honestidade na tristeza de CR-sad



Amigos leitores, entre um espirro e outro e essa dor no corpo que não vai embora, penso: oras, o Cristiano Ronaldo está no direito de estar triste! Por que isso agora, assim, de supetão? Porque pensei: semana passada eu também estava triste, e diante da melancolia pura a coisa mais irritante que se pode dizer é: “As criancinhas na África não têm o que comer…” ou “Os atletas paraolímpicos superam todas as adversidades para competir…”.

A minha tristeza é minha, é pessoal e intransferível, é proporcional à minha vivência, ao meu estado de espírito, caráter e entorno. O CR7, ou “CR-sad”, pode estar triste com o que bem quiser, quando bem quiser, da maneira que bem quiser. Não é culpa dele querer ganhar 12, 15, 20 milhões de euros em vez de 10 milhões. Ou sentir-se desprestigiado e desvalorizado porque outros nove jogadores ganham mais que ele. Trata-se de uma profissão como qualquer outra.

Eu disse culpa? Odeio essa palavra. É responsabilidade, isso, responsabilidade de uma série de pessoas que desde quando o “puto” encantava no Sporting até hoje passam a mão na sua cabecinha e o elevam. É Ronaldo em Portugal, Adriano no Brasil e Deus no céu. Pelo menos é como parece funcionar o ego dessa dupla. Mas eles são humanos e também falham falhas iguais às nossas.

Não gosto do gajo nem vou com a cara dele. Mas futebol é futebol: é campo, é onze contra onze, é bola na rede. A arrogância às vezes é confundida com personalidade, e vice-versa. Justificar o desempenho de CR7 nas quatro linhas com o seu jeito de ser é estupidez – ainda que a imagem do jogador contemporâneo seja cada vez mais atrelada à do herói e modelo. A sua ambição de ganhar mais milhões é um ponto de vista: diante da crise que assola a Europa, alguns encaram como insensatez, falta de tato; outros a veem como justa.

Ronaldo segue sendo um dos melhores do mundo. Independentemente de ganhar menos que Eto’o, Ibra, Conca ou Messi e mais que Iniesta, Agüero ou Neymar. Para dizer bem a verdade, a tristeza de CR7 parece ter pouco a ver com cifras: ele quer amor, carinho e atenção, coisa que dinheiro nenhum do mundo compra. O que aquela criancinha faminta da África e o atleta paraolímpico talvez tenham em abundância. Cada um fica triste com o que lhe falta.

“O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.” (Mario Quintana)

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