quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Carta a uma alma pura



Eu preciso acreditar que alguém acredita. Eu preciso acreditar que o sentimento supera quaisquer obstáculos, que transpõem as barreiras do tempo e do espaço. Porque o gostar nada mais é que a fé em algo. E como disse Fernando Pessoa, por Bernardo Soares, a fé é o instinto da ação.

Eu preciso acreditar no futuro. Numa voz enquanto durmo. Que o amanhã beija-me a testa quando surge a tristeza. Uma hora ou outra, a crença – na forma pueril da esperança – enfrenta a lâmina afiada da razão. Nada é permanente nesta jornada tão transitória.

Eu preciso acreditar na leveza como quem desacredita nela. Como se nada mais restasse se não abraçá-la sem perceber, de fato, o que faço. Porque aquilo que se torna natural na gente é o que levamos sempre conosco. E mesmo num dia de esquecimento, sabemos que ela ainda está aqui – debaixo de um monte de roupas sujas e antigas chamadas medo.

Eu preciso acreditar que não é pouco, que não é frívolo, que não é superficial. Que há ternura nas atitudes. A poesia do devaneio é que conforta a maquinaria do presente. As músicas mágicas ainda invadem o peito? As paisagens cósmicas ainda tocam a alma? As experiências lúdicas ainda aguçam o querer? A intimidade tácita ainda funda a fé?

Eu preciso acreditar na comunicação, para crescer. Acreditar na amizade, para respirar. No sorriso, para escapar. Na doação, para me libertar. No companheirismo, para sonhar. “Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida.” Não há bem maior que o de dividir a felicidade, e quem está disposto a isso – ainda que sem a noção da beleza do ato – está disposto a fazer o mundo.

Eu preciso acreditar que fechar os olhos não me levará ao escuro, que minhas vontades não serão antagônicas e desordenadas, que amanhecer será renovar-se e que não existe início nem fim, somente existência. Mas além de tudo, neste momento, eu preciso acreditar que existe alguém que também acredita.

Um comentário:

Neus Ferrer disse...

Existe quem também acredita, seguro