quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Conversas com um cão de plástico



Amigos leitores, vocês falam sozinho? Aos treze anos eu tinha um grande amigo que falava sozinho. Durante as provas me lembro da repetição de sua voz na carteira de trás: “Mendelssohn, você é muito burro! Você é muito burro, Mendelssohn”. Às vezes eu acho que o Mendelssohn morreu atropelado porque vivia distraído falando sozinho. Ele desceu do ônibus e quis cruzar a rua pela frente do veículo – uma picape o acertou em cheio.

Eu tenho passado muito tempo só nos últimos dias, e passei a falar sozinho. Quer dizer, sozinho não. Com o Moritz. O Moritz é um golden retriever de plástico que está diante de mim agora, enquanto escrevo. Ele me olha complacente com a minha dor, o meu sofrimento que alterna momentos de serenidade e insanidade. E me faz lembrar dela – não, da dor não. Dela, que passou.

O Moritz somos nós, o Moritz é ela. E ela é este vazio, este silêncio sepulcral que me faz falar sozinho. O meu bom dia para o bibelô canino na verdade é um bom dia para ela. O beijo dado antes de dormir – sim, eu beijo um cão de plástico! – é a vontade de tocar-lhe a bochecha com meus lábios. As coisas que fiz, que farei, que planejo, que anseio são todas compartilhadas com o Moritz.

Ao saber da loucura que me atinge, um amigo perguntou, sarcástico: “E ele te responde?”. Pior que não. Nem ela. Já pensei inclusive em levá-lo para passear comigo, metê-lo no bolso para cima e para baixo e tê-lo presente. Sempre. Mas daí me dá medo de um automóvel me arrebatar na esquina seguinte…

Um comentário:

Neus Ferrer disse...

Melhor deixe a Moritz em casa e quando volte, lhe explica como foi o passeio pela cidade ..................... não seja que por estar falando sozinho; sozinho não, -quero dizer com Moritz-, se repita a história de Mendelssohn. Então, muitas pessoas bonitas, também perderiam a um valioso e grande amigo. Bona nit.