quinta-feira, 28 de março de 2013

Carta aberta ao risco - Parte II



Sempre tive a consciência de que a vida é uma só. E se na infância esse pensamento me perturbava, se o medo da morte era presente e constante, aos poucos a angústia foi se moldando em outra: a de não viver. Aos 20 e pouco me sentia de uma inexperiência inquietante, você sabe bem. Cercado por um mundinho de fantasias, de convicções e ambições que eu nunca me enquadrei definitivamente. E, ao mesmo tempo, um velho, um ancião sem histórias, sem substância, sem recheio. Agora, com quase 30, nunca me senti tão jovem, tão revigorado, tão certo das escolhas e repleto de contos e encantos.

Você comentou comigo, numa conversa recente, que tudo no seu percurso foi conseguido com muita luta: o trabalho ideal, o seu refúgio, as economias. Muita luta, muito suor e pouco risco real. Uma receita de sucesso que às vezes nos distrai durante o caminho, e que depois não nos preenche totalmente... pelo contrário, nos deixa com uma sensação de “E agora?”. Foi exatamente isso que você disse que sentia.

E agora? Arrisca, oras! É o melhor momento de todos os ótimos momentos que apareceram para você! Talvez tudo o que tenha a perder – e ainda assim talvez a palavra nem seja “perder” – é esse porto seguro que não lhe garante o mais importante: tranquilidade. Seguro, mas desconfortável. Seguro, mas ainda incômodo. Seguro, mas sem alma. Aja! Faça acontecer, enquanto o tempo e os recursos estão a favor. E se o risco não valer a pena, e daí?... Tentar é um dos verbos mais bonitos do nosso idioma.

(continua...)

terça-feira, 26 de março de 2013

Carta aberta ao risco - Parte I



Você não é muito de frequentar este espaço, eu sei. Talvez tenha entrado duas ou três vezes por cortesia. Sei que não faz o seu estilo. Mas, ainda assim, resolvi que tinha de escrever-lhe uma carta aberta, esta carta aberta, que expõe muito do que você já está cansada de saber – pois ultimamente não faltam e-mails, mensagens de Whatsapp e conversas por telefone sobre o tópico.

Vivemos a era das redes sociais que escancaram de maneira consentida a nossa intimidade. Uma carta aberta parece sem propósito. Mas não é. Escrevemos muito e, ainda assim, não escrevemos nada. É uma sensação que sempre divide a mesa comigo. Sentado diante da tela em branco do Toshiba, a única ideia em que este texto se apoia é um verbo reflexivo: arriscar-se.

Você experimentou poucos riscos nesta vida. Ou, desculpe a sinceridade, você não experimentou nenhum. Longe de mim dizer, com isso, que a existência tem de estar marcada pela adrenalina incessante, pelo extremismo do carpe diem, ser uma corda bamba sobre o abismo... Mas é preciso arriscar-se, em algum momento da nossa jornada, a situação nos demanda isso. 

(continua...)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Turvas recordações



Guardo as tuas curvas
na minha turva memória
trajetórias sinuosas
desde as tuas pernas
permeando até as costas
coxa, bunda, covinhas
espinha acima, eis a nuca
que nunca é demais beijar
desejo a soma
e uma boca de aroma
faz latir o coração
a mão que passeia
passa, serpenteia
nos seios de bicos duros
e num enduro na cama
trama de corpos nus
os azuis da tua íris
um arco-íris de sensações
sem sair das tuas curvas
turvas recordações

segunda-feira, 18 de março de 2013

O meio-amor - Parte II



– O meu medo é o meio-amor, é de quem vive refém do não querer terminar sozinho e confunde companhia, carinho e admiração com amor.
– Se isso não é amor, eu não sei qual é o teu conceito então.
– Isso tudo é amizade. Amor é amizade com algo mais. Com sexo.
– Mas, afinal, o sexo não brota da cumplicidade, do convívio?
– O sexo é mais que isso: é carne, é olho, é boca, mas também é aroma, é toque, é ausência, é alma, é...
– Com tantas exigências práticas e lúdicas não duvido que seja tão difícil encontrar uma pessoa perfeita.
– E quem disse que a gente tem de buscar uma pessoa para suprir essas exigências? A gente tem de buscar o sentimento dentro de nós, e só depois de tê-lo bem dentro de nós, metê-lo dentro de uma pessoa, qualquer pessoa.
– Não entendo.
– Esquece o “quem”. Estamos falando de “como”. O meio-amor é o sentimento perdido, imaturo, à procura de uma casa para instalar-se.
– Amadurecer o amor pode durar uma vida...
– E, ainda assim, no fim dela, não o teremos definitivamente preparado.
– Então?
– Por isso o compartilhamos. Compartilhar é a prova final do amor.
– Amor de laboratório? E dizias para evitar tecnicismos, preservar a loucura...
– Não, amor de fato. E não meio-amor. De meio-amor o mundo está cheio, simplesmente porque decidimos aderir a trajetória convencional: se formar, arrumar um trabalho, comprar um carro, adquirir a casa própria, casar, ser promovido, ter filhos... O meio-amor é só mais um dos reflexos da nossa meia-existência, assim como a nossa meia-satisfação, o meio-desejo, a meia-felicidade.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O meio-amor - Parte I



– Mais que a falta de amor, o que me aflige é o meio-amor.
– Meio-amor? E como seria isso?
– Este amor mais ou menos, que não preenche nem esvazia, este comodismo sem altos e baixos, um amor tão corriqueiro como ovos mexidos ou sapatos desamarrados.
– Dizem que o novo amor nada tem a ver com o sentimento, e sim com afinidades.
– O dia que o amor perder a capacidade de amar e sucumbir aos tecnicismos da vida moderna, será o nosso fim... Amor sem uma ponta de inconsequência não perdura.
– Acho que é um pouco radical da tua parte. Conheço casais que vivem uma relação equilibrada e nem por isso há escassez de amor. O teu medo real qual é?
– E eu conheço casais que passam a impressão de uma relação equilibrada e que, na verdade, vivem uma grande mentira. Já dizia Nelson Rodrigues: “Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!”.
– O amor não tem de ser insano para ser amor. Pode ser sadio.
– Mas tem de ser amor.
– E isso não é óbvio?
– Tão óbvio que às vezes esquecemos.
– Perguntei do teu medo e você não respondeu...

segunda-feira, 11 de março de 2013

Poemeia



Meio-termo de uma vida
meio-vã num vão do
vai-e-vem, meio-sem
tempo-puro-sabor
meio-amor mais ou menos
satisfeito, feito entre
meios-comuns
em comum acordo
meio-morto-meio-vivo
numa metade de felicidade
meio-forçada
esses sorrisos parciais
dos ex-passionais
de meia-tigela.
Meio-dia, meia-hora,
minuto e meio
os fins são justificados
na essência
pela meia-existência.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Re-nova-ação



Ela desejou entre ardores
Que eu voltasse a versar
Procurou em outros autores
Para ver se eu estava lá

E na busca provou sabores
Ampliou histórias para contar
De novos ganhos e amores
Fez da palavra seu palavrar

Já sem as antigas dores
De tudo que fi-la sonhar
Num papel, compôs em cores
O que eu nunca pude pintar

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sorrisos de crocodilo


Ela terminou o e-mail dizendo que esperava que ele estivesse feliz. Feliz como? Isso de estar feliz é um pouco estranho, pensou. “Eu já estive feliz, tremendamente feliz, inconsequentemente feliz, e a felicidade não me trouxe muita coisa. Pelo contrário. Trouxe-me desamparo.” E agora vinha, outra e outra vez, a palavra feliz fazer-lhe uma visita.

Como quando via os casais felizes na rua, a passear de mãos dadas, e pensava: “Tomara que seja passageiro, tomara que ela descubra que ele a trai, que ele se canse das manias dela, que a felicidade se arruine, desmorone, desintegre”. Aquela ambição de ser feliz a dois era a maior das balelas quando lhe contaram sobre a felicidade. Simplesmente perdíamos tempo perseguindo o impossível, a estupidez crassa de nossa existência.

E buscava ao redor, nos seus amigos, algum vestígio de alegria pura, de sorrisos genuínos. “Pior que as lágrimas de crocodilo, são os sorrisos de crocodilo”, confidenciava à única pessoa que ousava abrir-se – ele próprio. Aquele bando de dentes e olhos apertados, empunhando copos e fazendo brindes, com tapinhas nas costas e abraços vazios, todos preocupados em satisfazer-se a si mesmos, nada tinha de autêntico.

Lembrava-se do mantra pessoano tatuado em sua memória – “O que é preciso é ser-se natural e calmo. Na felicidade ou na infelicidade.” –, e isso lhe dava a sensação de que tudo ou nada se resolveria muito em breve. Aquele caminho que decidiu seguir, e que hoje parecia um eterno retorno, uma vertiginosa teia de aranha, nada mais era que um ensinamento. Bastava ouvir o seu íntimo, como o fazia nas horas de silêncio e ausência total de sorrisos ou lágrimas.

“Eu também espero que você esteja feliz com a sua decisão”, quis respondê-la, com a mais moderada das honestidades. Mas lembrou que tinha uma coisa mais importante para fazer, alguém mais importante para cuidar e que já havia gastado muito tempo negligenciando. A prioridade era ele próprio.