segunda-feira, 18 de março de 2013

O meio-amor - Parte II



– O meu medo é o meio-amor, é de quem vive refém do não querer terminar sozinho e confunde companhia, carinho e admiração com amor.
– Se isso não é amor, eu não sei qual é o teu conceito então.
– Isso tudo é amizade. Amor é amizade com algo mais. Com sexo.
– Mas, afinal, o sexo não brota da cumplicidade, do convívio?
– O sexo é mais que isso: é carne, é olho, é boca, mas também é aroma, é toque, é ausência, é alma, é...
– Com tantas exigências práticas e lúdicas não duvido que seja tão difícil encontrar uma pessoa perfeita.
– E quem disse que a gente tem de buscar uma pessoa para suprir essas exigências? A gente tem de buscar o sentimento dentro de nós, e só depois de tê-lo bem dentro de nós, metê-lo dentro de uma pessoa, qualquer pessoa.
– Não entendo.
– Esquece o “quem”. Estamos falando de “como”. O meio-amor é o sentimento perdido, imaturo, à procura de uma casa para instalar-se.
– Amadurecer o amor pode durar uma vida...
– E, ainda assim, no fim dela, não o teremos definitivamente preparado.
– Então?
– Por isso o compartilhamos. Compartilhar é a prova final do amor.
– Amor de laboratório? E dizias para evitar tecnicismos, preservar a loucura...
– Não, amor de fato. E não meio-amor. De meio-amor o mundo está cheio, simplesmente porque decidimos aderir a trajetória convencional: se formar, arrumar um trabalho, comprar um carro, adquirir a casa própria, casar, ser promovido, ter filhos... O meio-amor é só mais um dos reflexos da nossa meia-existência, assim como a nossa meia-satisfação, o meio-desejo, a meia-felicidade.

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