segunda-feira, 4 de março de 2013

Sorrisos de crocodilo


Ela terminou o e-mail dizendo que esperava que ele estivesse feliz. Feliz como? Isso de estar feliz é um pouco estranho, pensou. “Eu já estive feliz, tremendamente feliz, inconsequentemente feliz, e a felicidade não me trouxe muita coisa. Pelo contrário. Trouxe-me desamparo.” E agora vinha, outra e outra vez, a palavra feliz fazer-lhe uma visita.

Como quando via os casais felizes na rua, a passear de mãos dadas, e pensava: “Tomara que seja passageiro, tomara que ela descubra que ele a trai, que ele se canse das manias dela, que a felicidade se arruine, desmorone, desintegre”. Aquela ambição de ser feliz a dois era a maior das balelas quando lhe contaram sobre a felicidade. Simplesmente perdíamos tempo perseguindo o impossível, a estupidez crassa de nossa existência.

E buscava ao redor, nos seus amigos, algum vestígio de alegria pura, de sorrisos genuínos. “Pior que as lágrimas de crocodilo, são os sorrisos de crocodilo”, confidenciava à única pessoa que ousava abrir-se – ele próprio. Aquele bando de dentes e olhos apertados, empunhando copos e fazendo brindes, com tapinhas nas costas e abraços vazios, todos preocupados em satisfazer-se a si mesmos, nada tinha de autêntico.

Lembrava-se do mantra pessoano tatuado em sua memória – “O que é preciso é ser-se natural e calmo. Na felicidade ou na infelicidade.” –, e isso lhe dava a sensação de que tudo ou nada se resolveria muito em breve. Aquele caminho que decidiu seguir, e que hoje parecia um eterno retorno, uma vertiginosa teia de aranha, nada mais era que um ensinamento. Bastava ouvir o seu íntimo, como o fazia nas horas de silêncio e ausência total de sorrisos ou lágrimas.

“Eu também espero que você esteja feliz com a sua decisão”, quis respondê-la, com a mais moderada das honestidades. Mas lembrou que tinha uma coisa mais importante para fazer, alguém mais importante para cuidar e que já havia gastado muito tempo negligenciando. A prioridade era ele próprio.

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