terça-feira, 30 de abril de 2013

Já fui mais alegre*


Já fui mais alegre. Hoje, sorrio menos. A maioria das vezes sozinho, lembrando do passado. Sorrir faz bem, dizem. Assim como ser leve. Coisa que foge um pouco ao meu jeito. Sou crítico e perfeccionista, e me cobro muito por isso. Organizado ao extremo – no plano externo. Porque aqui dentro é uma bagunça. Tanto de sentimentos quanto de pensamentos. Amo esportes. Vibro e me emociono com eles. Em Copa do Mundo, Olimpíada e Pan-Americano a empolgação é maximizada.

Tenho medo da morte. Sou cético e isso me machuca. Não acredito em nada, só no nada. E procuro sentido, para não fazer da minha vida um vazio. Mais que da morte, tenho medo do vazio da vida. Quero fazer tudo ao mesmo tempo e minha ansiedade e impaciência atuam contra mim. E me ajudam a ser desajeitado nas relações sociais. Sou reservado e ruim com as palavras faladas. Escondo isso. Me considero bom nas palavras escritas. Só que em vez de abrir, acaba por me fechar portas.

Adoro pipoca e chá mate gelado. Tem pouca coisa que odeio comer. Experimento de tudo, para ter condição de dizer se aprovo ou não. E mesmo rodeado de pessoas, às vezes me sinto sozinho e desamparado. Reflexo da atualidade. Meus medos giram em torno da palavra errar – outro reflexo da atualidade. Já disse: sou crítico e perfec-cionista. Odeio ser chamado a atenção, fazer papel de otário, magoar as pessoas. Há situações em que minto pelo bem dos outros. Devia pensar mais em mim. Mas me acho egoísta por pensar assim. Devia mesmo pensar mais em mim.

Sou fanático por futebol. Vejo, nesse jogo de regras simples, muitas explicações para nossos dramas e tragédias reais. Pena que tudo se tornou mais negócio e menos brincadeira. Quando criança, tinha temor que o futebol acabasse, que as pessoas parassem de jogá-lo – ou que os homens fossem trocados por robôs. Também não gostava de pizza e de queijo. Sou um sujeito muito mais fechado hoje que aos 8 anos de idade. Acho que meus problemas não devem aborrecer os outros. Mas absorvo os problemas dos outros. Ouço música para me acalmar e para me agitar. Tomo banho à meia-luz quando quero clarear as idéias. E dá certo. Demoro a pegar no sono. Acordo cedo e disposto. Vejo pouca TV – não tenho paciência.

Acho que nasci na época errada, e se tivesse em outra época, acharia a mesma coisa. Queria ser jogador de futebol e sou jornalista. Quando faço esporte, esqueço do mundo. Tenho vontade de sumir. Mas quem não tem? E também tenho vontade de ter filhos e criá-los como o melhor pai possível. Receio falhar, é verdade. Bebo para me ajudar a ser espontâneo. Também não acho isso legal. Dirigir me tranqüiliza, assim como lavar louça e caminhar. Gosto do mar. Sou desprendido de bens materiais e choro com filmes e ao ver outra pessoa chorar.

Não entendo a intolerância e o preconceito e acho que as pessoas perdem muito tempo com preocupações mesquinhas. Também não entendo como existe tanta gente com a mente fechada. Procuro sempre compreender o outro lado. E é um exercício difícil, mas necessário. Adoro canjica e isso lembra a minha madrinha. Cural e biscoito de queijo também. Amo meus pais e minha irmã, embora fale isso tão pouco a eles – e deveria falar mais. Às vezes fico confuso com a dimensão do meu pensamento, e nem consigo explicá-lo. Apenas sei, sem saber o que sei e como sei. É doloroso conviver com ele. Machuca, acelera os batimentos e chega a pirar.

Tenho saudades de várias coisas – inclusive do futuro. Acho que sou velho e vivi pouco. Me cobro mais sabedoria. Me cobro menos entendimento. Gosto do número 13 e de ler Fernando Pessoa e Nelson Rodrigues. De comer com colher e beber em caneca. Queria saber o motivo de estarmos aqui. Parece meio vago. Certa vez, disseram: o que importa é a presença. As histórias também. Quando vejo uma criança, sorrio. Fui aprendendo a ser calmo e natural com o tempo. No entanto, já fui mais alegre.

* Texto de 18/11/2008.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Nem São Jorge salva



Eu tinha o Sant Jordi para relatar. Eu tinha de falar de rosas e de livros, das ruas decoradas de Barcelona, apinhadas de gente. Eu tinha de falar de como o sol resolveu despontar, finalmente, depois de um inverno mais alargado que o esperado. Mas vou falar de futebol, que há muito tempo desapareceu do meu itinerário literário.

Eu quero falar de futebol, acima de tudo, porque os alemães Bayern Münich e Borussia Dortmund merecem essa atenção. Acho que foi o Paulo Vinícius Coelho que disse que o Bayern, para ser a melhor equipe do mundo, ainda precisa ganhar a Champions League e manter o alto nível por dois, três anos. Vencer o Barça, com total domínio, provocou um frenesi em gregos e troianos. Mas o 4-0 triunfal não apaga a história recente do clube catalão, não define o fim de uma “Era” – como muitos quiseram sentenciar – nem faz do time bávaro o melhor do mundo assim, instantaneamente.

Se assim fosse, o Borussia podia reclamar o título de segundo melhor escrete atual ao superar o Real Madrid. Mas os aurinegros não desfrutam desta posição. Podem até cavalgar senhores de si em direção ao topo, mas ainda falta chão – a única verdade posta e indefectível é de que se trata da equipe mais bem posicionada taticamente desta temporada e os louros da fama devem ser divididos com o treinador Jürgen Klopp.

Enquanto isso, nossa estimada seleção canarinho tropeça na “pelota” e dá uma bicuda na autoestima do brasileiro. A Família Scolari é uma tragicomédia pastelão, encabeçada por Neymar, o menino prodígio supervalorizado por tudo e todos. E pensar que um dia, há não muito tempo, chegaram a querer compará-lo com Messi e Cristiano Ronaldo. O santista está muito aquém do argentino e do português, e ouso dizer: atrás de pelo menos uns dez atacantes da contemporaneidade: de Cavani a Van Persie, de Agüero a Ribéry.

Quase a um ano da Copa do Mundo, já sabemos que brigamos para fazer o menos feio possível. Nunca nos sentimos tão desvalorizados e sem esperança, ainda mais com tantas falcatruas e maracutaias que circunda o Circo do Futebol Brasileiro e o Comitê do Mundial. Romário é nosso avançado solitário na batalha contra os cartolas-ditadores; enquanto isso, caminhamos rumo ao fiasco dentro e fora dos gramados. Uma conta que será paga pelo cidadão comum: mais pobre e mais triste. E aqui na Europa ainda ousam noticiar um crescimento econômico, quando o crescimento mental parece uma utopia.

E faltando ao onze contra onze, nem vale a pena pensar que ser brasileiro já foi orgulho de saber tratar bem a redonda. Nem São Jorge salva.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Adultonia



Obriga-se a definir
Define-se para enquadrar
Enquadra-se, mas sem seguir
O sonho já sem lugar

terça-feira, 2 de abril de 2013

Carta aberta ao risco - Parte III



Outro dia pensava nas voltas que a minha trajetória deu para que eu chegasse até aqui. E como, afinal, serviu para definir e continuar definindo o meu caráter. As pessoas têm o hábito de afirmarem, convictas, que não repetiriam determinadas situações de tristeza ou desilusões e que, se pudessem voltar ao passado, fariam diferente. Eu não. Cada passo em falso me conduziu a ser o que sou hoje – e os novos erros me conduzirão a muitas outras coisas belas e empolgantes.

Se me dissessem há três, cinco, dez anos que em 2013 estaria em Barcelona, a desconfiança se interporia a vontade. E, então, não há outro lugar que consigo me ver que não seja aqui. Só não pense que tudo, antes, foi maravilhoso. A necessidade brotou de horas de horas e horas de melancolia profunda, de momentos de agonia solitária, de lágrimas em silêncio. Do caos, nasceu a estrela. E a sua estrela espera aí fora, ao relento. É preciso sair para vê-la, perambular pelo jardim do mundo, percorrer os becos escuros e ruas desertas e deparar-se com inúmeras outras estrelas para saber qual é a sua. Talvez esteja onde você sempre esteve. Talvez esteja num lugar novo, a ser descoberto.

A verdade é que merece a aventura, merece cada segundo do risco. A vida sem risco é respirar por respirar. Por receio de espirrar, você não vai querer sentir o aroma de uma flor? Viver é mais que contemplar a tela, mais que contornar os traços já desenhados. Arrisque-se. Pinte a sua própria história de múltiplas cores. Garanto que você se reconhecerá uma artista, e tanto, do cotidiano.